TPB e Abandono Emocional: A Ferida que Nunca Cicatriza Sozinha
Por Marcelo Paschoal Pissuto | Publicado em 06/06/2025

O Transtorno de Personalidade Borderline (TPB) tem muitos rostos: instabilidade emocional, impulsividade, relações intensas. Mas por trás de tudo isso, existe uma ferida silenciosa e crônica que comanda o caos — o abandono emocional.
Não estamos falando apenas do abandono físico, do sumiço literal de alguém. O abandono emocional é invisível, mas destrutivo: é crescer ouvindo que suas emoções são “exagero”, “drama”, “frescura”. É chorar e não ser acolhido. É implorar por atenção e receber silêncio. É aprender que ser sensível demais é motivo de rejeição.
Essa experiência constante de invalidação emocional — especialmente na infância — deixa uma marca profunda na psique. O borderline não teme o abandono por capricho. Ele vive o abandono como um trauma recorrente, como se a qualquer momento pudesse ser deixado de lado, esquecido, descartado.
Sumário
- O Efeito do Abandono Emocional no Borderline
- A Cura Começa Pela Validação
- Abandono Não É Destino. É Ferida. E Feridas Podem Cicatrizar.
- Estratégias para Superar o Abandono Emocional
- O Papel da Terapia na Cura do TPB
- Construindo Relacionamentos Seguros
- Autocuidado e Reconstrução Interna
- Recursos e Apoio
- Conclusão
O Efeito do Abandono Emocional no Borderline
O abandono emocional no TPB não é apenas uma experiência isolada, mas uma lente através da qual a pessoa enxerga o mundo. Ele molda comportamentos, pensamentos e emoções, criando padrões que podem ser desafiadores, mas não impossíveis de mudar. Abaixo estão os principais efeitos do abandono emocional em pessoas com TPB:
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Relacionamentos em estado de alerta: Qualquer demora em responder uma mensagem pode soar como “fim”. Um tom de voz diferente ou uma expressão facial neutra pode ser interpretada como rejeição.
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Vínculos obsessivos: Amar com intensidade sufocante, porque o medo de perder é insuportável. Isso pode levar a comportamentos de controle ou dependência emocional.
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Explosões emocionais: Raiva descontrolada por um suposto desprezo que, muitas vezes, nem existe. Essas reações são desencadeadas por gatilhos emocionais que reativam o trauma do abandono.
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Autossabotagem: Terminar antes de ser deixado, destruir o que ama para não sofrer depois. Essa é uma tentativa de recuperar o controle em situações de vulnerabilidade.
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Crises de identidade: Quem vive em constante abandono aprende a se anular para agradar, e depois não sabe mais quem é. Isso resulta em uma autoimagem instável e dificuldade em estabelecer objetivos pessoais.
O abandono emocional é o fantasma que habita cada olhar, cada gesto, cada silêncio. E ele grita, muitas vezes levando a um ciclo de sofrimento que parece incontrolável. No entanto, compreender esses efeitos é o primeiro passo para romper esse ciclo.
Dica: Se você perceber que interpreta ações alheias como rejeição, tente pausar e refletir antes de reagir. Pergunte a si mesmo: “Essa interpretação é baseada em fatos ou em meu medo de abandono?”
A Cura Começa Pela Validação
A boa notícia — e sim, ela existe — é que esse vazio pode ser curado. Não com promessas vazias, mas com:
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Terapia especializada: Especialmente a Terapia Comportamental Dialética (TCD), que ensina a validar as próprias emoções e a reagir de forma mais equilibrada. A TCD ajuda a desenvolver habilidades como mindfulness e tolerância ao sofrimento.
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Relacionamentos seguros: Com pessoas que saibam escutar sem julgar, acolher sem sufocar, amar sem fugir. Esses relacionamentos criam um ambiente de segurança emocional.
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Reconstrução interna: Aprender a se dar aquilo que nunca recebeu: cuidado, respeito, paciência e amor próprio. Isso envolve práticas como autocompaixão e redefinição da autoimagem.
A validação emocional é a base para a cura do abandono. Validar significa reconhecer que as emoções de uma pessoa são legítimas, mesmo que pareçam intensas ou desproporcionais. Para alguém com TPB, ouvir “Eu entendo que você está se sentindo assim” pode ser um bálsamo poderoso, reduzindo a sensação de isolamento e rejeição.
Terapeutas especializados em TPB, como os que utilizam a TCD, são treinados para oferecer essa validação enquanto ensinam estratégias práticas para lidar com emoções intensas. Além disso, amigos e familiares podem aprender a validar sentimentos, criando um ambiente de apoio que promove a recuperação.
Abandono Não É Destino. É Ferida. E Feridas Podem Cicatrizar.
Quem vive com TPB não é fraco, instável ou “difícil”. É alguém que aprendeu a sobreviver em meio à negligência afetiva. Que criou mecanismos para não enlouquecer diante do silêncio emocional. E que, apesar de tudo, ainda deseja amar — e ser amado — profundamente.
Reconhecer o abandono emocional não é reviver a dor. É dar nome àquilo que nunca foi dito. E a partir daí, começar a se libertar. Esse processo envolve aceitar que a ferida existe, mas também acreditar que ela pode cicatrizar com o tempo, apoio e dedicação.
A jornada de cura do TPB é desafiadora, mas repleta de esperança. Cada passo em direção à validação emocional, seja por meio de terapia, relacionamentos saudáveis ou autocuidado, é um passo rumo à liberdade do peso do abandono.
Dica: Pratique a autovalidação escrevendo em um diário frases como “Minhas emoções são válidas” ou “Eu mereço ser ouvido”. Isso pode ajudar a fortalecer seu senso de valor próprio.
Estratégias para Superar o Abandono Emocional
Superar o abandono emocional no contexto do TPB requer uma abordagem multifacetada que combina terapia, apoio social e práticas de autocuidado. Abaixo estão algumas estratégias práticas para começar:
- Mindfulness: Práticas como meditação ou respiração consciente ajudam a reduzir a reatividade emocional. Por exemplo, a técnica “PARAR” da TCD (Parar, Respirar, Observar, Prosseguir) pode evitar reações impulsivas durante momentos de medo de abandono.
- Comunicação assertiva: Aprender a expressar sentimentos de forma clara e respeitosa, como dizer “Eu me sinto inseguro quando não recebo uma resposta rápida”, pode prevenir mal-entendidos em relacionamentos.
- Terapia de grupo: Participar de grupos de apoio, como os oferecidos pela NEABPD, permite compartilhar experiências e aprender com outras pessoas que enfrentam desafios semelhantes.
- Práticas de gratidão: Inspiradas em abordagens como E-Squared, de Pam Grout, anotar diariamente três coisas pelas quais você é grato pode realinhar sua perspectiva, reduzindo a intensidade do medo de abandono.
Essas estratégias ajudam a construir resiliência emocional e a reduzir o impacto do abandono na vida diária. Para mais detalhes sobre práticas de autocuidado, consulte nosso artigo sobre sintomas do TPB.
O Papel da Terapia na Cura do TPB
A terapia é um pilar fundamental para abordar o abandono emocional no TPB. A Terapia Comportamental Dialética (TCD), desenvolvida por Marsha Linehan, é especialmente eficaz, pois combina validação emocional com o ensino de habilidades práticas. As principais áreas da TCD incluem:
- Mindfulness: Ensina a permanecer presente, reduzindo a tendência de reagir impulsivamente a gatilhos emocionais.
- Regulação emocional: Ajuda a identificar e gerenciar emoções intensas, como raiva ou tristeza, sem recorrer a comportamentos autodestrutivos.
- Tolerância ao sofrimento: Oferece ferramentas para lidar com crises sem agravar o sofrimento, como técnicas de distração ou autoacalmação.
- Eficácia interpessoal: Desenvolve habilidades para construir relacionamentos saudáveis, como estabelecer limites e comunicar necessidades.
Além da TCD, outras abordagens, como a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) e a terapia focada no esquema, podem ajudar a reestruturar crenças negativas sobre si mesmo e os outros. Por exemplo, a TCC pode desafiar a crença de que “sou indigno de amor”, substituindo-a por pensamentos mais positivos e baseados em evidências.
Terapeutas especializados em TPB, como Marcelo Paschoal Pissuto, oferecem um ambiente seguro para explorar o abandono emocional e desenvolver estratégias de cura. Para saber mais sobre a TCD, consulte nosso artigo sobre TCD e TPB.
Construindo Relacionamentos Seguros
Relacionamentos seguros são essenciais para a recuperação do TPB, pois oferecem um contraponto ao abandono emocional. Esses relacionamentos são caracterizados por:
- Escuta ativa: Parceiros, amigos ou familiares que escutam sem julgar, validando os sentimentos da pessoa com TPB.
- Consistência: Comportamentos previsíveis e confiáveis que reduzem a ansiedade de abandono.
- Limites saudáveis: Estabelecer expectativas claras para proteger ambas as partes, como concordar em pausar discussões acaloradas.
Construir esses relacionamentos exige esforço mútuo. Pessoas com TPB podem aprender a comunicar suas necessidades de forma assertiva, enquanto seus entes queridos podem se educar sobre o transtorno para oferecer apoio eficaz. Recursos como os da NAMI podem ajudar familiares a entender o TPB.
Além disso, participar de atividades comunitárias, como grupos de voluntariado ou oficinas criativas, pode ajudar a formar conexões positivas fora do círculo terapêutico, promovendo um senso de pertencimento.
Autocuidado e Reconstrução Interna
A reconstrução interna é um processo de dar a si mesmo o cuidado e a validação que podem ter faltado no passado. Isso envolve práticas de autocuidado que fortalecem a autoestima e a resiliência emocional. Algumas sugestões incluem:
- Escrita em diário: Escrever sobre suas emoções ajuda a processá-las e identificar padrões. Por exemplo, anotar gatilhos de medo de abandono pode aumentar a autoconsciência.
- Práticas de autocompaixão: Tratar-se com a mesma gentileza que você ofereceria a um amigo querido, como repetir afirmações positivas como “Eu sou suficiente”.
- Atividades criativas: Pintura, música ou escrita criativa podem ser formas poderosas de expressar emoções e reconectar-se com sua identidade.
- Rotinas de bem-estar: Estabelecer hábitos saudáveis, como alimentação equilibrada, sono regular e exercícios físicos, apoia a saúde mental e física.
Essas práticas ajudam a reconstruir a autoimagem e a reduzir a dependência de validação externa, promovendo um senso de autonomia e valor próprio.
Dica: Reserve 10 minutos por dia para uma prática de autocuidado, como meditação ou escrita. Pequenos momentos de atenção a si mesmo podem fazer uma grande diferença.
Recursos e Apoio
Se você vive com TPB ou apoia alguém com o transtorno, há diversos recursos para ajudar na jornada de cura:
- Procure um Especialista: Um psicólogo especializado em TPB, como Marcelo Paschoal Pissuto, pode oferecer terapias como a Terapia Comportamental Dialética (TCD). Agende uma consulta em nossa página de contato.
- Participe de Grupos de Apoio: Organizações como a NEABPD e a NAMI oferecem grupos para compartilhar experiências e estratégias.
- Eduque-se: Livros como “I Hate You—Don’t Leave Me” (Jerold J. Kreisman e Hal Straus) e recursos do NIMH fornecem insights valiosos sobre o TPB.
- Pratique Autocuidado: Adote práticas como mindfulness, escrita em diário ou atividades criativas para apoiar sua saúde emocional.
A recuperação do TPB é uma jornada de coragem e resiliência. Com o suporte certo, é possível transformar o peso do abandono emocional em uma oportunidade de crescimento e cura.
Conclusão
O abandono emocional é uma ferida profunda que molda a experiência de quem vive com Transtorno de Personalidade Borderline. No entanto, essa ferida não é um destino final. Por meio de terapia especializada, relacionamentos seguros e práticas de autocuidado, é possível cicatrizar o vazio deixado pelo abandono e construir uma vida de equilíbrio e significado.
Reconhecer o impacto do abandono emocional é o primeiro passo para a libertação. Com apoio profissional e dedicação pessoal, pessoas com TPB podem transformar suas experiências em força, aprendendo a amar e ser amadas de forma saudável. Como psicólogo clínico, acredito que cada pessoa carrega dentro de si o potencial para a cura. Dê o primeiro passo hoje.
