Borderline em Movimento: Como as Viagens e a Psicanálise me Ajudaram a Viver com Equilíbrio

Por Marcelo Paschoal Pizzut — Psicólogo Clínico, nômade digital e pessoa diagnosticada com Transtorno de Personalidade Borderline.
Introdução: Viagens, Borderline e Psicanálise
Sou psicólogo, nômade digital há mais de uma década e, sim, sou borderline. Escrever este texto é também um ato de integração: unir minha formação clínica, minha experiência no divã da clínica e a vida em trânsito. Quero trazer reflexões psicanalíticas, práticas de viagem — e, acima de tudo, orientações concretas para quem convive com o Transtorno de Personalidade Borderline (TPB) e busca uma vida mais estável, com sentido e prazer.
Viagens evocam aventura, descoberta e uma pausa da rotina, mas elas também podem funcionar como catalisadores emocionais. Para muitas pessoas com TPB, deslocamentos podem tanto intensificar crises quanto abrir portas para transformações. A diferença está em como se prepara, como se cuida e como se integra a experiência. Abaixo exploro isso em detalhe: desde guias práticos até a leitura simbólica dos destinos à luz da psicanálise.
I. O Mundo Tangível das Viagens
Antes de mergulhar na dimensão simbólica, é importante cuidar do tangível: rotas, bagagem, hospedagem e planejamento emocional. Aqui listo práticas e recomendações que uso pessoalmente e que recomendo a pacientes nômades — muitas delas adaptáveis para quem viaja pouco, mas busca estabilidade emocional.
Guias de Viagem: o equilíbrio entre aventura e previsibilidade
Um bom guia — seja um site, blog, ou uma caderneta pessoal — serve para criar margem de segurança. Para quem tem TPB, previsibilidade reduz riscos de ansiedade intensa e de decisões impulsivas em momentos de crise. Eu mantenho um documento simples com:
- Endereço e contatos do local de hospedagem;
- Mapa de serviços essenciais (farmácia, emergência, um café tranquilo para trabalhar, um parque para caminhar);
- Contato de profissionais de saúde mental locais ou opções de atendimento online com fuso horário compatível;
- Uma “lista de segurança” com números de telefone e passos rápidos para quando a ansiedade aumentar.
Resenhas de Hotéis e Espaços: reconhecer ambientes seguros
Ao escolher hospedagem, é útil priorizar tranquilidade e previsibilidade. Alguns sinais práticos que observo:
- Reclamações recorrentes sobre barulho ou insegurança — sinal para evitar;
- Check-in simplificado e equipe comunicativa — bom para quem precisa de suporte imediato;
- Espaços de trabalho dedicados (ou quartos com boa iluminação) — importantes para nômades que fazem atendimentos e precisam de ambiente controlado;
- Políticas claras de cancelamento — para reduzir impulsividade financeira em crises.
Dicas de Destinos e Relatos: escolher por necessidade emocional
A escolha do destino pode ser funcional: às vezes eu escolho lugares calmos para regular emoções; outras vezes, busco cidades vibrantes para me sentir energizado. Pergunte-se: o que eu preciso agora — limpeza, companhia, silêncio, novidade?
II. Viagens e o Inconsciente — Uma Perspectiva Psicanalítica
Na psicanálise, a viagem é frequentemente uma rica metáfora: deslocamento externo que espelha deslocamentos internos. Vou descrever alguns pilares conceituais que me ajudam a pensar por que viajar pode ter um efeito terapêutico — ou, às vezes, desestabilizar.
A viagem como metáfora do self
Ao explorar lugares, somos convidados a confrontar paisagens internas: memórias, defesas e desejos que emergem ao contato com o outro e o novo. Para quem tem TPB, esse encontro pode ativar sensações de abandono, repulsa ou idealização — todas reações esperadas, humanas e compreensíveis.
Fuga e encontro: dupla face do deslocamento
Viajar pode ser tanto fuga quanto encontro. Para muitas pessoas com TPB, a tentação de “fugir” ao primeiro sinal de desconforto é grande. No entanto, se planejada e acompanhada de estratégias, a viagem vira um espaço de encontro com partes de si mesmas antes inacessíveis.
Sonhos, destinos e desejos inconscientes
Há destinos que carregam significados pessoais: o mar pode simbolizar imensidão e dissolução de fronteiras; montanhas, desafios e limites; cidades, convivência e possibilidades de reencontro. Perceber essas simbologias nos ajuda a decodificar desejos e a agir com mais consciência.
“Quem olha para fora, sonha; quem olha para dentro, desperta.” — Carl Gustav Jung
III. Viver com TPB: Dicas Clínicas e Práticas para Uma Vida Mais Saudável
Agora, o que interessa: como uma pessoa com TPB pode ter uma vida feliz e saudável? A resposta não é única, mas há práticas com forte respaldo clínico que integram psicanálise, terapias comportamentais (DBT, TCC), e cuidados médicos quando necessários. Abaixo trago recomendações práticas — testadas em consultório e na estrada.
1. Terapia contínua e vínculo terapêutico
Manter um vínculo terapêutico estável é central. Para nômades, isso pode significar sessões online com um terapeuta de confiança ou um terapeuta local que respeite sua história. A relação terapêutica é um porto: nela trabalham-se questões de abandono, impulsividade e autorregulação.
2. Habilidades de regulação emocional (DBT como referência)
As habilidades desenvolvidas pela Terapia Comportamental Dialética (DBT) são pilares práticos:
Mindfulness: capacidade de observar pensamentos e emoções sem agir imediatamente.
Regulação emocional: identificar sinais corporais e transformar impulsos em passos planejados.
Tolerância ao desconforto: estratégias de sobrevivência para momentos de crise sem autossabotagem.
Habilidades interpessoais: comunicação eficaz e limites saudáveis.
- Anote 3 situações por dia que despertaram emoção intensa.
- Registre o gatilho, a emoção sentida, a intensidade (0–10) e a resposta escolhida.
- Ao final da semana, identifique padrões e converse sobre eles com seu terapeuta.
3. Rotina e previsibilidade
TPB se beneficia de estruturas externas que compensam a instabilidade interna. Mesmo viajando, mantenha rotinas: hora de acordar, pausas para alimentação, exercícios curtos e momentos de sono consistentes. Pequenas rotinas funcionam como “âncoras” psicológicas.
4. Rede de suporte realista
Construa uma rede que inclua um terapeuta, um médico (se houver medicação), amigos confiáveis e, se necessário, grupos de apoio. Evite relações totalmente dependentes — prefira vínculos que estimulem autonomia e limites saudáveis.
5. Plano de crise pessoal
Tenha um plano escrito para crises: passos concretos, números de emergência, técnicas de grounding e quem contatar. Eu carrego uma “ficha de emergência emocional” em PDF no celular com contatos e passos. Isso reduz decisões impulsivas sob pressão.
6. Medicamentos quando indicados
A farmacoterapia não “cura” o TPB, mas pode ajudar a estabilizar sintomas (ansiedade intensa, impulsividade severa, labilidade afetiva). A indicação e o acompanhamento médico são imprescindíveis. Nunca inicie, altere ou interrompa medicação sem supervisão profissional.
7. Autocompaixão e narrativa pessoal
Construir uma narrativa que reconheça a dor sem se reduzir a ela é uma prática terapêutica poderosa. Em vez de “sou incapaz”, cultivar narrativas como “tenho desafios, mas aprendo estratégias” promove resiliência e ação.
8. Planejamento financeiro simples
Impulsividade financeira é frequente. Para reduzir riscos: automatize poupança, use cartões com limites, e carregue uma planilha simples de despesas antes de viagens para reduzir decisões precipitadas.
9. Sono, exercício e nutrição
Aspectos biológicos regulam o humor: priorize sono regular, atividade física moderada e alimentação balanceada. Eu, por exemplo, reservo 30 minutos de caminhada diária, mesmo em viagens, para clarear pensamentos e regular o sistema nervoso.
10. Limites tecnológicos
Redes sociais podem intensificar reações emocionais. Experimente horários delimitados para uso e limpar feeds que disparem comparação ou raiva. Ferramentas de bloqueio temporário ajudam quando a impulsividade aumenta.
IV. Sobre Ser Nômade Digital e Borderline
Ser nômade digital significa lidar com incertezas logísticas e sociais com frequência. Para quem tem TPB, isso exige técnicas para manter estabilidade sem perder a liberdade que a vida em trânsito oferece.
Cuidados logísticos que favorecem estabilidade
- Planos reserva: sempre ter alternativa de hospedagem e um fundo emergencial;
- Telemedicina: manter profissional de referência que ofereça sessões online;
- Rotinas adaptáveis: uma “estrutura flexível” que cabe em diferentes fusos e locais;
- Ambientes de trabalho seguros: reservar cafés ou espaços com boa conexão e pouca distração para teleconsultas;
- Checklists de segurança emocional: o documento curto com passos de emergência e autocuidado.
Comunicação em relacionamentos à distância
Relações românticas e amizades à distância podem ser intensas. Comunicação clara e contratos emocionais (acordos sobre frequência de contato, limites e sinais de necessidade) ajudam a prevenir mal-entendidos e crises por expectativa não correspondida.
Zoneamento emocional: espaços para trabalhar e para recarregar
Eu determino zonas no meu dia: horário de trabalho (profissional), hora privada (reflexão) e hora social (interação). Isso evita confusão de papéis e reduz impressões de abandono ou invasão entre pessoas que acompanham minha rotina.
V. Estratégias Terapêuticas e Exercícios Práticos
Aqui estão exercícios concretos e passos recomendados que já usei com pacientes e em minha própria vida. Não substituem terapia, mas são ferramentas úteis para o dia a dia.
Exercício 1 — Grounding 5–4–3–2–1 (regulação imediata)
- Liste 5 coisas que você vê.
- Liste 4 coisas que pode tocar agora.
- Liste 3 sons que consegue ouvir.
- Liste 2 cheiros que sente (ou que traz como lembrança segura).
- Liste 1 gosto que pode evocar.
Use por 2–5 minutos quando a ansiedade estiver alta. Funciona para desacelerar o sistema nervoso e criar ancoragem sensorial.
Exercício 2 — Carta de Autocuidado (plano de crise)
Escreva uma carta curta que você possa enviar para si mesmo em momentos de crise. Deve conter:
- Três passos imediatos (respiração, caminhada curta, ligar para um amigo).
- Dois lembretes de compaixão (frases que você aceitará como verdade agora).
- Um plano de contato (nome, telefone, disponibilidade).
Exercício 3 — Análise de Cadeia (quando um episódio acontece)
- Identifique o antecedente que desencadeou a emoção forte.
- Descreva pensamentos automáticos que surgiram.
- Registre a sensação corporal e a ação tomada.
- Planeje uma resposta alternativa para o próximo episódio semelhante.
Exercício 4 — Rotina de 30 minutos de regulação matinal
Comece o dia com 30 minutos divididos em:
- 5 minutos de respiração consciente;
- 10 minutos de movimento (alongamento, caminhada leve);
- 10 minutos de revisão do diário (três metas do dia);
- 5 minutos de afirmações ou leitura breve com conteúdo nutritivo.
Exercício 5 — Comunicação I-Messages para relações interpessoais
Use frases do tipo: “Eu sinto X quando Y acontece, e eu preciso Z” — isso ajuda a reduzir defensividade e melhora assertividade.
VI. Relatos Anônimos e Exemplos Clínicos
Aqui compartilho exemplos clínicos anônimos (com a devida permissão e alteração de detalhes), que ilustram como estratégias podem funcionar na prática.
Relato 1 — “A viagem que virou terapia”
Um paciente que viajava frequentemente para “fugir” do término de relacionamentos passou a usar viagens planejadas como mecanismo terapêutico: antes de cada saída, organizou sessões pré-viagem com seu terapeuta, definiu objetivos emocionais (reconectar-se com prazer, não buscar validação externa) e criou um plano de crise. Resultado: reduziu episódios de autossabotagem e trouxe relatos de maior bem-estar nas semanas seguintes.
Relato 2 — “Nômade que criou rotina”
Outra paciente nômade estabeleceu horários fixos para sono e trabalho e manteve uma sessão semanal online. Isso diminuiu a sensação de fuga e aumentou sua sensação de competência profissional e afetiva.
Relato 3 — “Comunicação que salvou um relacionamento”
Um casal em que um dos parceiros tinha TPB adotou “contratos de crise”: sinais de texto combinados (ex.: “preciso de espaço 30m”) e regras para checar com calma depois. A prática reduziu brigas impulsivas e promoveu reaproximação mais segura.
Perguntas Frequentes (FAQ)
Posso viajar se tenho TPB?
Sim — com planejamento, suporte terapêutico e estratégias de regulação. Muitas pessoas com TPB viajam com sucesso quando têm um plano de crise, terapia contínua e rotinas adaptáveis.
O que faço durante uma crise longe de casa?
Atue com seu plano de crise: grounding 5–4–3–2–1, técnicas de respiração, contate alguém da rede de suporte e busque atendimento local se houver risco. Se em dúvida, procure emergência local.
A medicação é necessária?
A medicação pode ajudar em sintomas específicos (ansiedade, depressão, impulsividade), mas a indicação e o acompanhamento médico são essenciais. Terapia e habilidades comportamentais continuam fundamentais.
Conclusão e Chamadas à Ação
Viajar e viver em movimento não é incompatível com o TPB. Pelo contrário: com planejamento, suporte e prática terapêutica, a jornada pode se tornar um espaço de transformação. Minha experiência pessoal e clínica mostra que combinar autoconhecimento, ferramentas práticas e vínculos terapêuticos incrementa a qualidade de vida — mesmo diante das dificuldades que o transtorno apresenta.
Se você se identifica com essa narrativa, convido três ações simples:
- Procure ou mantenha um terapeuta de confiança e converse sobre seus planos de viagem;
- Crie um plano de crise com passos concretos e contatos que você possa acessar de qualquer lugar;
- Pratique, diariamente, pelo menos um exercício de regulação (respiração, grounding, caminhada).
