Transtorno de Personalidade Borderline e os Neurotransmissores: Um Olhar Atualizado da Neurociência

O Transtorno de Personalidade Borderline (TPB) é uma condição psiquiátrica complexa que afeta milhões de pessoas em todo o mundo. Caracterizado por instabilidade emocional, impulsividade e dificuldades nas relações interpessoais, o TPB tem raízes profundas nas esferas biológica, psicológica e social. Embora os sintomas comportamentais e emocionais sejam frequentemente discutidos, os mecanismos neurobiológicos que sustentam o transtorno ainda são menos compreendidos pelo público geral. Um dos aspectos mais fascinantes da pesquisa moderna é o papel dos neurotransmissores — os mensageiros químicos que regulam a comunicação entre os neurônios — no desenvolvimento, manutenção e tratamento do TPB. Neste artigo, mergulharemos profundamente na relação entre os neurotransmissores e o TPB, explorando as evidências científicas mais recentes até 2025, com o objetivo de oferecer uma visão clara, acessível e fundamentada para pacientes, familiares e profissionais da saúde mental.
Compreender o TPB sob a perspectiva da neurociência não apenas desmistifica o transtorno, mas também abre portas para tratamentos mais eficazes e personalizados. Vamos explorar como a serotonina, dopamina, noradrenalina, GABA e glutamato moldam os sintomas do TPB e como intervenções baseadas nesses sistemas podem transformar vidas.
1. Introdução ao Transtorno de Personalidade Borderline
O Transtorno de Personalidade Borderline é uma condição que desafia tanto os pacientes quanto os profissionais de saúde mental devido à sua complexidade e variabilidade. Ele é definido por um padrão persistente de instabilidade emocional, comportamental e interpessoal, frequentemente acompanhado por um medo intenso de abandono e um senso de identidade fragilizado. Segundo o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5-TR, 2022), o TPB afeta entre 1,6% e 5,9% da população global, com maior prevalência em mulheres, embora estudos recentes sugiram que homens podem ser subdiagnosticados devido a diferenças na apresentação dos sintomas.
Os sintomas centrais do TPB incluem:
-
Labilidade afetiva intensa, com mudanças rápidas de humor.
-
Impulsividade autodestrutiva, como gastos excessivos ou automutilação.
-
Crises de raiva desproporcionais.
-
Comportamentos suicidas ou para-suicidas recorrentes.
-
Sentimentos crônicos de vazio e solidão.
Esses sintomas podem variar em intensidade, mas frequentemente geram sofrimento significativo e impactam a qualidade de vida. A pergunta que surge é: o que, em termos neurobiológicos, explica essa instabilidade emocional e comportamental? A resposta está, em grande parte, nos sistemas neurotransmissores e nas redes cerebrais que regulam as emoções.
Para entender melhor, é importante considerar que o TPB não é apenas uma questão de “personalidade” ou “comportamento”. Ele tem bases biológicas sólidas, que interagem com fatores ambientais, como traumas na infância, e psicológicos, como padrões de pensamento disfuncionais. A neurociência moderna nos permite enxergar o TPB como um transtorno multifacetado, onde os neurotransmissores desempenham um papel central.
2. O Sistema Nervoso Central e a Regulação Emocional
A regulação emocional é um processo sofisticado que envolve a interação entre várias regiões do cérebro, incluindo a amígdala, o córtex pré-frontal e o hipocampo. Essas áreas trabalham em conjunto para processar estímulos emocionais, avaliar ameaças e tomar decisões racionais. No TPB, essa rede neural apresenta disfunções estruturais e funcionais que contribuem para os sintomas característicos do transtorno.
Estudos de neuroimagem, como ressonância magnética funcional (fMRI), revelaram que indivíduos com TPB exibem uma hiperatividade da amígdala, a região cerebral responsável por detectar ameaças e gerar respostas emocionais intensas, como medo ou raiva. Ao mesmo tempo, há uma hipoatividade no córtex pré-frontal dorsolateral e ventromedial, áreas associadas ao controle inibitório, planejamento e regulação emocional (Schulze et al., 2020). Essa desconexão entre centros emocionais e cognitivos resulta em respostas emocionais exageradas e dificuldade em modular impulsos.
Os neurotransmissores são os mediadores químicos dessas interações cerebrais. Eles transmitem sinais entre os neurônios, influenciando diretamente o funcionamento das redes neurais. No TPB, desequilíbrios nos sistemas neurotransmissores, como serotonina, dopamina e outros, amplificam as disfunções cerebrais, criando um ciclo de instabilidade emocional e comportamental.
Para ilustrar, imagine o cérebro como uma orquestra: cada neurotransmissor é um instrumento, e as regiões cerebrais são os músicos. No TPB, alguns instrumentos estão desafinados, e a comunicação entre os músicos é descoordenada, resultando em uma “música” caótica. Compreender esses desequilíbrios é o primeiro passo para desenvolver tratamentos mais eficazes.
3. Principais Neurotransmissores Envolvidos no TPB
3.1 Serotonina (5-HT)
A serotonina, frequentemente chamada de “neurotransmissor do bem-estar”, desempenha um papel crucial na regulação do humor, da impulsividade e da agressividade. No TPB, alterações no sistema serotoninérgico estão entre as mais bem documentadas na literatura científica.
Evidências:
-
Pacientes com TPB frequentemente apresentam baixa disponibilidade de serotonina no sistema nervoso central, o que compromete a regulação emocional.
-
Estudos com tomografia por emissão de pósitrons (PET) demonstraram uma redução na ligação do receptor serotoninérgico 5-HT1A em regiões pré-frontais e límbicas, como a amígdala, em indivíduos com TPB (Soloff et al., 2019).
-
A baixa atividade serotoninérgica está diretamente associada a comportamentos impulsivos, automutilações e ideação suicida, sintomas comuns no TPB.
Essas alterações sugerem que a serotonina atua como um “freio” emocional, e sua deficiência no TPB resulta em respostas descontroladas a estímulos emocionais. Por exemplo, um comentário percebido como crítica pode desencadear uma reação emocional intensa em alguém com TPB, devido à incapacidade de modular a resposta emocional.
Tratamento:
-
Inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS), como fluoxetina e sertralina, são amplamente utilizados no tratamento do TPB, especialmente para reduzir sintomas depressivos e impulsividade. Esses medicamentos aumentam a disponibilidade de serotonina nas sinapses, promovendo maior estabilidade emocional.
Além dos ISRS, outras terapias que estimulam o sistema serotoninérgico, como a prática de mindfulness e exercícios físicos, podem complementar o tratamento farmacológico, oferecendo benefícios a longo prazo.
3.2 Dopamina (DA)
A dopamina é o neurotransmissor associado ao sistema de recompensa, motivação e prazer. No TPB, disfunções no sistema dopaminérgico contribuem para comportamentos impulsivos, busca de sensações e até episódios dissociativos, como despersonalização ou paranoia transitória.
Evidências:
-
Estudos de neuroimagem apontam alterações na densidade de receptores dopaminérgicos D2/D3 em regiões estriatais do cérebro em pacientes com TPB (Bohus et al., 2023).
-
Episódios psicóticos transitórios, como paranoia ou despersonalização, frequentemente observados em situações de estresse intenso no TPB, podem estar ligados a picos de atividade dopaminérgica.
A dopamina, quando desregulada, pode levar a uma busca constante por estímulos intensos, como comportamentos de risco ou conflitos interpessoais, que temporariamente aliviam o vazio emocional característico do TPB.
Tratamento:
-
Estabilizadores do humor e antipsicóticos atípicos, como quetiapina e olanzapina, modulam os receptores dopaminérgicos e são eficazes na redução da impulsividade e da instabilidade afetiva em pacientes com TPB.
Embora os antipsicóticos sejam úteis em casos graves, é essencial combinar a farmacoterapia com intervenções psicossociais, como a Terapia Comportamental Dialética (TCD), para abordar os aspectos emocionais e comportamentais do transtorno.
3.3 Noradrenalina (NA)
A noradrenalina é o neurotransmissor responsável pela ativação do sistema de resposta ao estresse, vigilância e atenção. No TPB, sua hiperatividade contribui para reações emocionais exageradas, como respostas de “luta ou fuga”, que são comuns em situações de estresse percebido.
Evidências:
-
Pesquisas indicam uma ativação exacerbada do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HHA) em pacientes com TPB, resultando em níveis cronicamente elevados de cortisol e noradrenalina (Rinne et al., 2021).
-
Essa hiperatividade se manifesta como hipervigilância, reatividade emocional intensa e dificuldade em retornar a um estado de calma após eventos estressantes.
Essas alterações explicam por que pessoas com TPB podem interpretar situações neutras como ameaças, desencadeando respostas emocionais desproporcionais.
Tratamento:
-
Bloqueadores beta-adrenérgicos, como o propranolol, estão sendo investigados para reduzir os sintomas de hiperexcitação e ansiedade no TPB, embora ainda não sejam amplamente recomendados devido à falta de consenso clínico.
Além disso, terapias que promovem a regulação do estresse, como técnicas de mindfulness e biofeedback, podem ajudar a reduzir a hiperatividade noradrenérgica, complementando o tratamento.
3.4 GABA (Ácido Gama-Aminobutírico)
O GABA é o principal neurotransmissor inibitório do sistema nervoso central, responsável por “frear” a atividade cerebral excessiva. No TPB, a deficiência de GABA está associada à hiperatividade emocional e à dificuldade em controlar impulsos.
Evidências:
-
Estudos com ressonância magnética espectroscópica revelaram níveis reduzidos de GABA no córtex cingulado anterior e na ínsula de pacientes com TPB (Stanley et al., 2022).
-
Essa deficiência contribui para a incapacidade de inibir impulsos e regular emoções intensas, características centrais do TPB.
O GABA atua como um “calmante” natural do cérebro, e sua redução no TPB amplifica as respostas emocionais descontroladas.
Tratamento:
-
O uso de benzodiazepínicos é controverso no TPB devido ao risco de dependência e aumento da impulsividade. Alternativas como gabapentina e pregabalina estão sendo estudadas, mas requerem supervisão cuidadosa.
Terapias não farmacológicas, como a meditação mindfulness, também podem aumentar a atividade do GABA, oferecendo uma abordagem segura e eficaz.
3.5 Glutamato
O glutamato é o principal neurotransmissor excitatório do cérebro, responsável por estimular a atividade neural. No TPB, desregulações no sistema glutamatérgico intensificam estados emocionais e impulsivos.
Evidências:
-
Níveis elevados de glutamato foram encontrados na amígdala e no córtex órbito-frontal de pacientes com TPB, indicando um desequilíbrio entre excitação e inibição cerebral (Hazlett et al., 2024).
-
Essas alterações estão correlacionadas com dificuldades na regulação emocional e comportamental.
O excesso de glutamato pode levar a uma “sobrecarga” neural, amplificando a intensidade das emoções e dificultando o controle impulsivo.
Tratamento:
-
Moduladores do glutamato, como riluzol e memantina, estão em fase experimental, mas representam uma promessa para o tratamento de sintomas do TPB no futuro.
Essas descobertas abrem novas perspectivas para a psicofarmacologia, com potencial para tratamentos mais precisos e eficazes.
4. Interações entre Sistemas Neurotransmissores
Os sistemas serotoninérgico, dopaminérgico, noradrenérgico, gabaérgico e glutamatérgico não funcionam isoladamente. Eles formam uma rede interconectada, onde a disfunção de um sistema pode impactar os outros, criando um efeito cascata que amplifica os sintomas do TPB.
Por exemplo, a baixa serotonina pode desregular o sistema dopaminérgico, levando a respostas impulsivas exageradas sob estresse. A deficiência de GABA, por sua vez, reduz a capacidade de inibir essas respostas, enquanto o excesso de glutamato intensifica a excitação neural. Essa interação desequilibrada é o que sustenta a instabilidade emocional e comportamental característica do TPB.
Compreender essas interações é essencial para desenvolver tratamentos integrados que abordem múltiplos neurotransmissores simultaneamente. Por exemplo, combinar ISRS (para serotonina) com estabilizadores do humor (para dopamina) e práticas de mindfulness (para GABA) pode oferecer uma abordagem mais holística e eficaz.
5. Genética e Epigenética dos Neurotransmissores no TPB
A predisposição ao TPB tem uma base genética significativa. Polimorfismos em genes relacionados aos sistemas serotoninérgicos (como o 5-HTTLPR), dopaminérgico (COMT, DRD4) e noradrenérgico (MAOA) foram associados a traços característicos do TPB, como impulsividade e instabilidade emocional (Amad et al., 2020).
Além disso, fatores epigenéticos, como traumas na infância, negligência emocional ou abuso, podem modificar a expressão desses genes, aumentando a vulnerabilidade ao transtorno. Por exemplo, experiências adversas podem “desligar” genes que regulam a produção de serotonina, perpetuando desequilíbrios neuroquímicos.
Em 2025, o EU-Borderline Project confirmou que adversidades na infância impactam diretamente os sistemas serotoninérgicos e dopaminérgicos na vida adulta, predispondo ao TPB (Kernberg et al., 2025). Esses achados reforçam a importância de intervenções precoces para prevenir o agravamento do transtorno.
A epigenética também oferece esperança: assim como fatores negativos podem alterar a expressão gênica, intervenções positivas, como psicoterapia e ambientes de apoio, podem promover mudanças epigenéticas que favorecem a recuperação.
6. Terapias Integradas e Neuroplasticidade
Uma das descobertas mais encorajadoras da neurociência é a neuroplasticidade, a capacidade do cérebro de se adaptar e formar novas conexões neurais ao longo da vida. Essa propriedade é especialmente relevante para o tratamento do TPB, pois significa que os desequilíbrios neuroquímicos e neurais podem ser modificados com as intervenções certas.
Terapias como a Terapia Comportamental Dialética (TCD) e a Terapia Baseada em Mentalização (TBM) demonstraram:
-
Redução da ativação da amígdala, diminuindo a reatividade emocional.
-
Aumento da conectividade funcional no córtex pré-frontal, melhorando o controle inibitório.
-
Normalização dos níveis de serotonina e dopamina com adesão a longo prazo (Linehan Institute, 2024).
Práticas de mindfulness, um componente central da TCD, comprovadamente aumentam a atividade do GABA, promovendo um equilíbrio entre sistemas excitatórios e inibitórios. Essas intervenções não apenas aliviar os sintomas, mas também reestruturam o cérebro, oferecendo benefícios duradouros.
Além disso, a combinação de psicoterapia com farmacoterapia pode potencializar os efeitos da neuroplasticidade, ajudando os pacientes a desenvolverem maior resiliência emocional e comportamental.
7. O Futuro: Psicofarmacologia Personalizada e Intervenções Neurobiológicas
A medicina personalizada está transformando o campo da psiquiatria, e o TPB está na vanguarda dessas inovações. Com avanços em exames genéticos e neuroimagem, será possível mapear o perfil neuroquímico de cada paciente, permitindo tratamentos mais precisos e eficazes. Isso inclui:
-
Seleção de medicamentos com base em receptores e enzimas específicas, aumentando a eficácia.
-
Redução de efeitos colaterais, melhorando a tolerabilidade.
-
Melhora da adesão terapêutica, essencial para resultados a longo prazo.
Além disso, técnicas de neuromodulação, como estimulação cerebral profunda (DBS) e estimulação magnética transcraniana (EMTr), estão mostrando resultados promissores em casos graves de TPB, especialmente em pacientes com disfunções evidentes no córtex pré-frontal. Essas intervenções podem restaurar o equilíbrio neural, oferecendo esperança para aqueles que não respondem aos tratamentos tradicionais.
O futuro do tratamento do TPB é promissor, com a integração de neurociência, genética e tecnologia para criar abordagens verdadeiramente personalizadas.
8. Considerações Finais
O Transtorno de Personalidade Borderline é uma condição complexa, com raízes profundas nos sistemas neuroquímicos e nas redes cerebrais. Embora os fatores psicossociais, como traumas e dinâmicas interpessoais, sejam fundamentais para sua compreensão, a neurobiologia oferece uma perspectiva indispensável para desvendar seus mecanismos e desenvolver tratamentos eficazes.
Ao integrar a neurociência com a psicologia clínica, estamos construindo um caminho para abordar o TPB de forma mais compassiva e científica. A compreensão dos neurotransmissores e sua interação nos permite não apenas tratar os sintomas, mas também oferecer esperança para a recuperação a longo prazo.
O avanço do conhecimento neurocientífico está derrubando estigmas e abrindo portas para um futuro onde o sofrimento causado pelo TPB pode ser significativamente reduzido. Com tratamentos personalizados, terapias baseadas em evidências e uma abordagem centrada no paciente, é possível ajudar pessoas com TPB a reconstruirem suas vidas, promovendo resiliência, autoconhecimento e qualidade de vida.
Se você ou alguém que você conhece está enfrentando os desafios do TPB, saiba que a ciência está do seu lado. Busque apoio profissional e explore as opções de tratamento disponíveis. A mudança é possível, e a neurociência está aqui para guiar o caminho.
Referências Científicas (seleção)
-
American Psychiatric Association. DSM-5-TR (2022).
-
Schulze, L., Schmahl, C., & Niedtfeld, I. (2020). Neural correlates of disturbed emotion processing in borderline personality disorder: A multimodal meta-analysis. Biological Psychiatry.
-
Soloff, P. H., et al. (2019). PET Imaging of Serotonin 1A Receptor Binding in Borderline Personality Disorder. Journal of Psychiatry & Neuroscience.
-
Rinne, T., et al. (2021). HPA axis dysregulation in borderline personality disorder. Neuropsychopharmacology.
-
Stanley, B., et al. (2022). GABAergic dysfunction in the anterior cingulate of patients with borderline personality disorder. Translational Psychiatry.
-
Hazlett, E. A., et al. (2024). Glutamate and emotional dysregulation in borderline personality disorder. Molecular Psychiatry.
-
Kernberg, O. F., et al. (2025). EU-Borderline Project: Longitudinal Study of Epigenetic Mechanisms in BPD. Emopean Journal of Psychiatry.
-
Linehan Institute (2024). Advances in DBT: Neurobiological Impact of Long-Term Treatment.
