Interseções entre a Filosofia de Kierkegaard e o Tratamento do Transtorno de Personalidade Borderline
Søren Kierkegaard (1813-1855)

Como a Filosofia Pode Ajudar no Tratamento do TPB?
A filosofia existencial de Søren Kierkegaard, um dos pilares do existencialismo, oferece uma perspectiva única para compreender e tratar o Transtorno de Personalidade Borderline (TPB). Com foco em temas como angústia, identidade, desespero e liberdade, Kierkegaard explora a condição humana de maneira que ressoa profundamente com os desafios enfrentados por indivíduos com TPB. Este artigo explora como suas ideias podem enriquecer abordagens terapêuticas, promovendo um entendimento mais profundo dos sintomas do TPB e estratégias para seu manejo.
Ao integrar a filosofia existencial com a psicologia clínica, é possível oferecer uma abordagem mais holística, que não apenas trata os sintomas, mas também ajuda os indivíduos a encontrar significado e autenticidade em suas vidas, apesar dos desafios emocionais e psicológicos.
Angústia Borderline sob a Lente de Kierkegaard
A angústia, um conceito central na filosofia de Kierkegaard, é descrita como a “tontura da liberdade” – o peso esmagador das possibilidades infinitas diante da responsabilidade de fazer escolhas. Para indivíduos com TPB, essa angústia se manifesta de forma intensa, refletida em sintomas como:
- Instabilidade na identidade e sensação de vazio existencial: A dificuldade em manter uma autoimagem consistente reflete o que Kierkegaard descreve como uma luta para alcançar um “eu autêntico”.
- Labilidade emocional intensa e persistente: As rápidas mudanças de humor no TPB ecoam a angústia kierkegaardiana, onde o indivíduo oscila entre esperança e desespero.
- Dificuldade na formulação de metas existenciais: A ausência de propósito claro pode ser interpretada como uma falha em abraçar a liberdade de criar um sentido pessoal para a vida.
- Experiências recorrentes de desespero ontológico: O desespero, para Kierkegaard, é a incapacidade de se tornar um “eu” integrado, um sentimento comum entre pessoas com TPB.
Esses paralelos sugerem que a filosofia de Kierkegaard pode oferecer uma estrutura teórica para compreender as experiências internas de pessoas com TPB, ajudando tanto pacientes quanto terapeutas a abordar os sintomas de forma mais profunda.

Conceitos Kierkegaardianos Aplicados ao TPB
Kierkegaard oferece conceitos que podem ser diretamente aplicados ao tratamento do TPB, ajudando a abordar os desafios emocionais e existenciais:
- A Angústia como Oportunidade: Em vez de evitar a angústia, Kierkegaard sugere enfrentá-la como um caminho para a autenticidade. Na terapia, isso pode se traduzir em ajudar o paciente a explorar suas emoções intensas, transformando-as em oportunidades de autoconhecimento.
- O Eu e a Autenticidade: Kierkegaard enfatiza a importância de desenvolver um “eu” autêntico, o que pode inspirar intervenções terapêuticas focadas em fortalecer a identidade e reduzir a sensação de vazio.
- Desespero e Fé: O desespero, para Kierkegaard, surge da desconexão com o “eu” ou com um propósito maior. Terapias que promovem a busca por significado, como a logoterapia, podem se alinhar a essa visão.
- Liberdade e Escolha: A ênfase de Kierkegaard na liberdade de escolha pode ser usada para empoderar pacientes com TPB, ajudando-os a assumir o controle de suas decisões e a construir uma vida mais alinhada com seus valores.
Esses conceitos podem ser integrados a abordagens como a Terapia Dialética Comportamental (TDC), que já é amplamente utilizada no tratamento do TPB, para reforçar a regulação emocional e a construção de uma identidade estável.
Obras de Kierkegaard e Implicações Terapêuticas
As obras de Kierkegaard oferecem insights que podem ser aplicados diretamente ao tratamento do TPB. A tabela abaixo destaca algumas de suas principais contribuições:
| Obra | Ano | Contribuição ao TPB |
|---|---|---|
| Ou-Ou | 1843 | Explora escolhas autênticas versus fragmentação identitária, incentivando pacientes a buscar decisões alinhadas com seus valores. |
| O Conceito de Angústia | 1844 | Oferece uma compreensão profunda da angústia como parte da existência, útil para abordar a labilidade emocional no TPB. |
| Temor e Tremor | 1843 | Discute a fé e o “salto da fé”, que pode inspirar pacientes a encontrar esperança e propósito apesar do desespero. |
| A Doença para a Morte | 1849 | Analisa o desespero ontológico, ajudando a compreender e tratar a sensação de vazio e desconexão no TPB. |
Essas obras podem servir como base para reflexões terapêuticas, ajudando pacientes a explorar questões existenciais e a desenvolver maior resiliência emocional.
Exercícios Terapêuticos Inspirados em Kierkegaard
Para aplicar os conceitos de Kierkegaard na prática clínica, terapeutas podem incorporar exercícios que promovam reflexão e autenticidade. Algumas sugestões incluem:
- Jornal reflexivo: Peça ao paciente que escreva sobre momentos de angústia, explorando o que os desencadeia e como podem ser transformados em oportunidades de crescimento.
- Meditação sobre escolhas: Oriente o paciente a refletir sobre uma decisão importante, considerando como ela reflete seus valores e contribui para sua autenticidade.
- Exploração do vazio existencial: Use perguntas guiadas para ajudar o paciente a identificar fontes de significado em sua vida, como relacionamentos, hobbies ou espiritualidade.
- Prática de mindfulness: Ensine técnicas de atenção plena para ajudar o paciente a observar suas emoções sem julgamento, reduzindo a intensidade da labilidade emocional.
- Discussão filosófica: Introduza trechos de obras de Kierkegaard em sessões terapêuticas, incentivando o paciente a conectar os conceitos com suas experiências pessoais.
Esses exercícios podem ser combinados com abordagens tradicionais, como a TDC, para maximizar os benefícios terapêuticos.
Perguntas Frequentes sobre Kierkegaard e TPB
A integração da filosofia de Kierkegaard com o tratamento do TPB pode gerar dúvidas. Abaixo, respondemos algumas perguntas comuns:
- Como a filosofia pode ajudar na terapia do TPB? A filosofia existencial oferece um quadro para explorar questões de identidade, propósito e angústia, complementando abordagens clínicas com uma perspectiva mais profunda.
- Os conceitos de Kierkegaard são acessíveis para pacientes com TPB? Sim, com a orientação de um terapeuta, os conceitos podem ser simplificados e aplicados de forma prática, como em exercícios reflexivos.
- É necessário conhecer filosofia para se beneficiar? Não, o terapeuta pode traduzir as ideias de Kierkegaard em linguagem acessível, focando em sua relevância para os desafios do paciente.
- Essa abordagem substitui a terapia tradicional? Não, ela complementa terapias baseadas em evidências, como a TDC, oferecendo uma dimensão adicional ao tratamento.
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Para aprofundar seu conhecimento sobre o TPB e a filosofia de Kierkegaard, confira os recursos abaixo:
Necessidade de Suporte Especializado?
A integração da psicologia clínica com a filosofia existencial pode oferecer uma abordagem única e poderosa para o manejo dos sintomas do Transtorno de Personalidade Borderline. Um psicólogo especializado pode ajudar a aplicar os conceitos de Kierkegaard de forma prática, promovendo maior autoconhecimento, resiliência e bem-estar.
