
A simbiose, no contexto biológico, é um fenômeno amplamente positivo, marcado pela colaboração mutualmente benéfica entre diferentes espécies. Um exemplo clássico é quando um tipo de peixe ou ave remove parasitas do corpo de outro animal, proporcionando alívio e limpeza ao hospedeiro, enquanto obtém alimento para si. Essas interações são essenciais para manter o equilíbrio ecológico e a saúde dos ecossistemas.
No entanto, no campo da psicologia, e mais especificamente na psicanálise, o termo “simbiose” adquire uma conotação bastante negativa. Psicologicamente, a simbiose descreve uma relação excessivamente dependente entre indivíduos, geralmente dentro de um contexto familiar, onde os limites entre o self e o outro são confusos ou inexistentes. Em vez de promover independência e crescimento pessoal, essa simbiose psicológica mantém os envolvidos em um estado de dependência patológica, onde um ou ambos os membros não conseguem funcionar de forma autônoma.
A psicanálise, ao tratar de simbiose, muitas vezes se refere a essas relações como sendo de “fusão”, onde a individualidade das pessoas envolvidas é comprometida. Um exemplo clássico é o de uma mãe que não permite que seu filho desenvolva sua própria identidade e autonomia, operando como se mãe e filho fossem uma única entidade. Esse tipo de dinâmica pode levar a sérias dificuldades para o filho, como ansiedade, dificuldades em estabelecer relações saudáveis, e problemas em tomar decisões independentes.
A simbiose na psicanálise é frequentemente explorada durante a terapia, onde o terapeuta ajuda o indivíduo a reconhecer esses padrões de relacionamento e a trabalhar para estabelecer limites mais saudáveis. Isso envolve aprender a diferenciar os próprios pensamentos, sentimentos e necessidades das dos outros, um passo crucial para o desenvolvimento de uma identidade independente e saudável.
Ao entender as distintas interpretações de simbiose em biologia e psicologia, fica evidente como um mesmo conceito pode ser aplicado de maneiras muito diferentes, refletindo a complexidade das interações tanto no mundo natural quanto no emocional humano.
Decidir afastar-me dessas dinâmicas simbióticas não foi uma escolha fácil. Escolhi viver minha solidão e explorar a solitude, processos que, embora desafiadores, revelaram-se transformadores. Ao me afastar, confrontei a dor e a dificuldade inerentes ao rompimento de padrões de dependência tão profundamente enraizados. Contudo, esse espaço que criei para mim mesmo permitiu-me respirar, refletir e, finalmente, começar a curar.
Neste processo de solitude, aprendi a valorizar minha própria companhia e a entender melhor minhas necessidades e desejos individuais. Aprendi também a diferenciar entre estar sozinho e sentir-se solitário. A solidão tornou-se um estado de paz e autoconhecimento, em vez de um vazio a ser preenchido por outros. Agora, sinto-me vivo e verdadeiramente feliz, consciente de minha própria identidade e mais equipado para estabelecer relacionamentos saudáveis e mutuamente enriquecedores.
Como psicólogo especialista em Transtorno de Personalidade Borderline (TPB) e alguém que também é portador deste transtorno, minha jornada pessoal enriquece minha prática profissional. Ofereço uma perspectiva que combina experiência pessoal e conhecimento especializado, entendendo profundamente tanto os desafios quanto os caminhos possíveis para a recuperação e o bem-estar.
A partir da teoria histórico-cultural de Lev Vygotsky, o Transtorno de Personalidade Borderline (TPB) pode ser compreendido como o resultado de falhas significativas nos processos de mediação social e emocional ao longo do desenvolvimento. Para Vygotsky, o ser humano constrói suas funções psicológicas superiores — como regulação emocional, pensamento reflexivo e identidade — inicialmente no plano social, para depois internalizá-las. Quando a criança cresce em ambientes marcados por instabilidade afetiva, negligência emocional ou relações simbióticas disfuncionais, esses processos de internalização tornam-se fragmentados. No contexto do TPB, isso se manifesta como dificuldade em nomear emoções, regular impulsos e manter uma percepção estável de si e do outro. Assim, o sofrimento não é apenas individual, mas profundamente relacional. Essa compreensão amplia o olhar clínico e está alinhada com abordagens contemporâneas apresentadas em psicologo-borderline.online, que enfatizam a importância do vínculo terapêutico como espaço de reconstrução emocional.
Um conceito central de Vygotsky é o da mediação, segundo o qual o desenvolvimento psicológico ocorre por meio de instrumentos simbólicos, especialmente a linguagem. No TPB, observa-se frequentemente uma dificuldade significativa na mediação emocional: sentimentos intensos surgem sem serem organizados simbolicamente, levando a reações impulsivas ou comportamentos autodestrutivos. Quando, na infância, não houve adultos capazes de nomear emoções, oferecer continência psíquica e validar experiências internas, o indivíduo cresce sem ferramentas internas para regular seus estados emocionais. Do ponto de vista clínico, a psicoterapia funciona como um novo espaço de mediação, onde o terapeuta auxilia o paciente a construir linguagem para emoções antes vividas de forma caótica. Esse trabalho é essencial no tratamento especializado descrito em psicólogo especialista em transtorno de personalidade borderline, permitindo que o sujeito desenvolva maior autonomia emocional.
Outro conceito fundamental da obra de Vygotsky é a Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP), definida como a distância entre aquilo que o indivíduo consegue fazer sozinho e o que pode realizar com apoio de outro mais experiente. Aplicada ao TPB, essa ideia ajuda a compreender por que muitas pessoas apresentam grande dependência emocional nos relacionamentos. Em contextos de desenvolvimento emocional precário, a ZDP não foi adequadamente sustentada, levando o indivíduo a buscar no outro a regulação que não conseguiu internalizar. Na clínica, o terapeuta ocupa temporariamente esse papel de suporte, ajudando o paciente a desenvolver habilidades emocionais que, com o tempo, passam a ser utilizadas de forma autônoma. Essa abordagem respeita o ritmo do paciente e evita intervenções invasivas, conforme a proposta apresentada em sobre o trabalho terapêutico, promovendo crescimento gradual e sustentável.
A teoria vygotskiana também destaca que o desenvolvimento humano é inseparável do contexto cultural. No caso do TPB, isso inclui padrões familiares, discursos sociais sobre afeto, abandono e identidade, além de experiências de exclusão ou invalidação. Muitos pacientes internalizam narrativas culturais de desvalorização emocional, o que intensifica sentimentos de vazio e inadequação. O sofrimento psíquico, portanto, não pode ser reduzido a um diagnóstico isolado, mas deve ser entendido como expressão de uma história relacional complexa. Avaliações iniciais, como o teste online de sinais de borderline, podem ajudar a identificar esses padrões, sempre como ponto de partida para uma escuta clínica aprofundada.
Vygotsky defendia que o aprendizado precede o desenvolvimento, e não o contrário. Essa ideia é especialmente relevante no tratamento do TPB, pois indica que novas formas de regulação emocional podem ser aprendidas antes mesmo de se tornarem habilidades plenamente consolidadas. A psicoterapia, aliada a abordagens estruturadas como a DBT, cria contextos de aprendizagem emocional onde o paciente experimenta novas respostas diante do sofrimento. Com o tempo, essas respostas são internalizadas, promovendo maior estabilidade emocional. Quando necessário, o acompanhamento psiquiátrico atua como suporte adicional nesse processo, conforme descrito em psiquiatria e cuidado integrado, sempre respeitando a singularidade do paciente.
A relação terapêutica, sob a ótica vygotskiana, é um espaço privilegiado de desenvolvimento psicológico. É na interação com o outro que o indivíduo reorganiza suas funções mentais. Para pessoas com TPB, que frequentemente vivenciaram relações imprevisíveis ou invasivas, essa experiência relacional segura é profundamente reparadora. Grupos terapêuticos e espaços de apoio emocional, como o grupo de apoio emocional, ampliam esse processo ao oferecer novas experiências de pertencimento e validação.
Do ponto de vista científico e institucional, essa compreensão relacional do sofrimento psíquico é respaldada por diretrizes de saúde mental disponíveis em fontes como a SciELO Brasil (https://www.scielo.br) e a Biblioteca Virtual em Saúde (https://bvsalud.org), que destacam a eficácia de intervenções psicossociais de longo prazo para transtornos de personalidade. Esses dados reforçam a importância de abordagens que considerem o contexto social e histórico do indivíduo.
Por fim, compreender o Transtorno de Personalidade Borderline à luz de Lev Vygotsky permite uma visão menos individualizante e mais compassiva do sofrimento humano. O tratamento deixa de ser apenas correção de sintomas e passa a ser um processo de reconstrução de funções psicológicas mediadas pelo vínculo. Buscar ajuda profissional é um passo fundamental nesse caminho, respaldado por orientações éticas do Conselho Federal de Psicologia (https://site.cfp.org.br) e pelas diretrizes do Ministério da Saúde (https://www.gov.br/saude). O cuidado adequado possibilita não apenas redução do sofrimento, mas o desenvolvimento de uma vida mais estável, significativa e integrada.
Marcelo Paschoal Pizzut – Psicólogo Especialista em TPB
