Reflexões sobre o Transtorno Borderline: Entre a Dor e a Reconstrução

Reflexões sobre o Transtorno de Personalidade Borderline: Entre a Dor e a Reconstrução

Meu nome é Marcelo, sou psicólogo, especialista em Transtorno de Personalidade Borderline (TPB), e convivo com esse diagnóstico. Escrever sobre isso é, ao mesmo tempo, terapêutico e desafiador. Cada linha traz à tona fragmentos de mim: as dores que carrego, os medos que enfrento, as conquistas que celebro silenciosamente. Este texto é uma tentativa de compartilhar reflexões sinceras e humanas sobre como é viver — e trabalhar — com o Borderline. Ele não pretende ser uma explicação técnica, mas sim uma travessia entre o que sentimos e o que aprendemos ao longo da jornada.

1. O que é o Transtorno de Personalidade Borderline?

O TPB é um transtorno que afeta a forma como uma pessoa se vê, como se relaciona com os outros e como lida com as emoções. Na prática, isso se traduz em uma instabilidade constante — nos relacionamentos, no humor, na autoestima, na percepção da realidade. É como viver numa montanha-russa emocional, onde tudo parece ser “8 ou 80”, onde o medo do abandono é paralisante, e onde o vazio pode ser ensurdecedor.

Mas o Borderline não é apenas sofrimento. Ele também é um grito por conexão, por pertencimento. Muitas pessoas com TPB sentem demais, vivem demais, amam demais. E, por isso mesmo, também sofrem profundamente.

2. O Vazio: Essa Dor sem Nome

Uma das experiências mais comuns entre quem tem TPB é o sentimento crônico de vazio. Não se trata de estar entediado ou triste — é um buraco no peito que engole tudo ao redor. É como estar presente, mas não conseguir se sentir real. Esse vazio pode durar minutos, horas ou dias, e muitas vezes leva a comportamentos impulsivos como forma de preenchê-lo: compras compulsivas, uso de substâncias, sexo casual, automutilação.

Durante muito tempo, tentei preencher esse vazio com coisas externas: com a aprovação dos outros, com conquistas profissionais, com relacionamentos intensos. Mas o vazio sempre voltava, porque o buraco estava dentro, e não fora.

3. A Intensidade Emocional: Amar Demais, Sofrer Demais

O TPB transforma emoções em tempestades. Alegria vira euforia. Tristeza vira desespero. Raiva vira fúria. Muitas vezes, esses sentimentos surgem de gatilhos pequenos — uma mensagem não respondida, um olhar atravessado, uma sensação de rejeição. A intensidade é tão avassaladora que, muitas vezes, a única forma de suportar é “desligar” a mente, se dissociar, fugir.

Essa intensidade emocional também afeta os relacionamentos. Quem tem TPB ama com toda a força, mas também teme perder o outro com a mesma intensidade. Isso gera comportamentos ambivalentes: ora buscamos desesperadamente proximidade, ora nos afastamos para evitar a dor do abandono.

4. A Fragmentação da Identidade

“Quem sou eu?” Essa pergunta pode soar filosófica para algumas pessoas, mas para quem tem Borderline, ela é uma dúvida constante, angustiante. A identidade parece flutuar de acordo com o momento, a companhia, o estado emocional. Em um dia, posso me sentir forte, confiante, criativo. No outro, vazio, inútil, perdido.

Essa instabilidade pode afetar escolhas profissionais, amizades, estilo de vida. Muitos mudam de curso, de cidade, de amigos com frequência. Não é porque são indecisos, mas porque estão tentando se encontrar. E, nesse processo, muitas vezes se perdem ainda mais.

5. O Medo do Abandono

Talvez o aspecto mais doloroso do TPB seja o medo intenso de ser abandonado — real ou imaginário. Um atraso, uma mudança de tom na voz, uma resposta breve por mensagem: tudo isso pode ser interpretado como sinal de rejeição.

Esse medo não é só emocional, ele é quase físico. O corpo entra em estado de alerta, o coração dispara, a mente cria cenários catastróficos. E, para evitar o abandono, muitas vezes nos sabotamos: nos tornamos controladores, ciumentos, impulsivos — e, paradoxalmente, afastamos justamente aqueles que mais queremos por perto.

6. Automutilação e Comportamentos Autodestrutivos

Infelizmente, a dor emocional muitas vezes se transforma em dor física. A automutilação não é uma tentativa de chamar atenção, como muitos pensam, mas sim uma forma desesperada de lidar com sentimentos insuportáveis. Cortar, queimar ou bater em si mesmo pode, paradoxalmente, trazer uma sensação de alívio temporário.

Outros comportamentos autodestrutivos também são comuns: uso abusivo de substâncias, relacionamentos tóxicos, negligência com a saúde. É como se, inconscientemente, quiséssemos punir a nós mesmos por sermos “demais”.

7. A Vergonha: Sentir-se Quebrado

Uma das emoções mais presentes em quem tem TPB é a vergonha. Vergonha de sentir demais, de reagir demais, de não conseguir se controlar. Vergonha de não ser “normal”. Vergonha de ter sido internado, de tomar remédios, de precisar de ajuda.

Essa vergonha muitas vezes impede que a pessoa busque tratamento. Eu mesmo demorei anos para aceitar que precisava de ajuda. Como psicólogo, sentia que deveria dar conta sozinho. Mas o TPB não se vence com força de vontade — ele precisa de acolhimento, tratamento, suporte.

8. A Terapia: Caminho de Autoconhecimento e Cura

A psicoterapia — especialmente a Terapia Comportamental Dialética (TCD) — é uma das ferramentas mais eficazes no tratamento do TPB. Com ela, aprendemos a regular emoções, a tolerar o desconforto, a melhorar os relacionamentos.

Mas a terapia não é mágica. Ela exige paciência, compromisso, vulnerabilidade. Às vezes, doeu mais encarar meus padrões do que continuar neles. Mas, aos poucos, fui construindo novas formas de lidar com o mundo — e comigo mesmo.

A TCD, em especial, ensina habilidades fundamentais: atenção plena, tolerância ao estresse, regulação emocional e eficácia interpessoal. Essas ferramentas se tornam bússolas quando tudo parece desmoronar.

9. Espiritualidade, Corpo e Rede de Apoio

Além da terapia, encontrei suporte na espiritualidade, na prática de exercícios físicos e em grupos de apoio. Aprendi que cuidar do corpo influencia a mente. Que meditar, rezar ou simplesmente silenciar pode ajudar a encontrar um espaço seguro dentro de mim. E que não estou sozinho.

Grupos de apoio — presenciais ou online — oferecem algo que a terapia individual não alcança: o sentimento de pertencimento. Ver outras pessoas passando pelas mesmas lutas me fez sentir menos “errado” e mais humano.

10. Borderline Não é Sentença: É Processo

Hoje, posso dizer com serenidade: sou Borderline, mas não sou só isso. Sou psicólogo, amigo, filho, homem sensível, resiliente, curioso. O transtorno não me define — ele faz parte da minha história, mas não é o final dela.

O caminho da recuperação é cheio de altos e baixos. Não existe uma “cura mágica”, mas existe evolução. E cada pequeno passo conta. Cada vez que não gritei, cada vez que não me machuquei, cada vez que pedi ajuda — foi uma vitória.

11. Um Novo Olhar: A Importância do Acolhimento

Se eu pudesse deixar uma mensagem, seria esta: quem tem Borderline não precisa de julgamento, precisa de acolhimento. Ninguém escolhe ter um transtorno. Mas todos merecem a chance de ser compreendidos, respeitados, apoiados.

O TPB não deve ser visto como um “rótulo negativo”, mas como uma oportunidade de se conhecer melhor. Muitas pessoas com Borderline são profundamente empáticas, criativas, intuitivas. Elas apenas precisam de ferramentas para lidar com a intensidade do mundo interno.

12. Reflexão Final: A Coragem de Existir

Viver com Borderline é, sim, difícil. Mas também é um ato de coragem diária. É como andar na beira de um abismo, e ainda assim continuar caminhando. É aprender a não se abandonar, mesmo quando tudo em você grita para desaparecer.

Aos poucos, vamos descobrindo que podemos ser mais do que nossas dores. Que podemos nos reconstruir. Que merecemos amor — inclusive de nós mesmos. E que viver vale a pena, mesmo quando parece impossível.’


Considerações Finais

Este texto é uma homenagem a todos que lutam diariamente contra a instabilidade emocional, contra o medo de serem “demais” ou “insuficientes”. É possível aprender a conviver com o TPB, a transformar sofrimento em aprendizado, a fazer das cicatrizes caminhos de empatia. E se você está lendo isso — seja como paciente, profissional ou familiar — saiba: não está sozinho.

Decal

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