Fadiga e Falta de Energia no Transtorno de Personalidade Borderline: Neurobiologia, Sono e Estratégias de Tratamento

O Transtorno de Personalidade Borderline (TPB) é uma condição psiquiátrica crônica caracterizada por instabilidade emocional, comportamentos impulsivos, relacionamentos intensos e flutuantes, autoimagem instável e sentimentos persistentes de vazio. Além desses sintomas centrais, pacientes frequentemente relatam fadiga intensa, baixa energia e distúrbios do sono, que agravam o impacto da condição no cotidiano. Esses sintomas, muitas vezes subdiagnosticados, demandam atenção especializada para melhorar a qualidade de vida. Em 2025, avanços na neurobiologia, diretrizes clínicas da American Psychiatric Association (APA) e tratamentos inovadores destacam a importância de abordar o metabolismo energético e o ritmo circadiano no manejo do TPB. Este artigo explora essas dimensões em profundidade, oferecendo uma visão integrada para o tratamento.
Neurobiologia e Metabolismo Energético no Transtorno de Personalidade Borderline
Avanços neurobiológicos em 2025 revelam que o TPB está associado a alterações no metabolismo cerebral, particularmente no metabolismo glicolítico. Estudos de neuroimagem, como os de Santos et al. (2024), indicam redução na captação de glicose no córtex pré-frontal (incluindo áreas orbitofrontal e dorsolateral), responsáveis pela regulação emocional, enquanto a amígdala apresenta hiperatividade. Essa combinação sugere uma menor eficiência energética neuronal, contribuindo para sintomas como fadiga mental, dificuldade de concentração e maior vulnerabilidade ao estresse. Essas alterações podem explicar a sensação persistente de exaustão relatada por pacientes, mesmo em atividades rotineiras.
Além disso, evidências apontam para uma possível resistência à insulina periférica em indivíduos com TPB, o que pode afetar a produção de neurotransmissores como serotonina e dopamina. Essa disfunção metabólica está associada ao aumento da impulsividade e da instabilidade emocional, agravando os sintomas do transtorno. Almeida e Costa (2025) sugerem que intervenções que melhorem a sensibilidade à insulina, como dietas específicas, podem ter um impacto positivo na regulação emocional e na energia mental.
O ritmo circadiano também desempenha um papel crucial. Estudos de Ferreira et al. (2024) mostram que pacientes com TPB frequentemente apresentam latência de sono prolongada, eficiência de sono reduzida e horários de dormir/acordar irregulares, resultando em um padrão de sono atrasado. Monitoramento por actigrafia confirma que esses distúrbios estão associados à gravidade dos sintomas e à diminuição da energia diurna. Intervenções de cronoterapia, como a terapia de luz matinal, têm mostrado potencial para melhorar o humor, a vigília e a sincronização circadiana, conforme destacado por Oliveira e Mendes (2025).
O TPB frequentemente coexiste com comorbidades como fibromialgia e síndrome da fadiga crônica, que compartilham sintomas de fadiga, dor crônica e distúrbios do sono. Revisões de Silva e Pereira (2025) indicam que traumas infantis e disfunções no eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HPA) podem ser fatores subjacentes comuns, sugerindo uma sobreposição neurobiológica e psicossocial que intensifica a exaustão em pacientes com TPB.
Fadiga e Falta de Energia no Contexto do TPB
A fadiga no Transtorno de Personalidade Borderline é um sintoma debilitante que impacta significativamente o funcionamento diário. Um estudo amplo com 5.700 participantes (Lopes e Santos, 2024) revelou que 66% dos indivíduos com TPB relatam sonolência diurna, cansaço crônico e dificuldade em realizar atividades cotidianas, com uma prevalência duas vezes maior em comparação com a população geral. Esses sintomas, frequentemente subdiagnosticados, interferem na adesão ao tratamento e na capacidade de manter rotinas estáveis.
A exaustão emocional e física é agravada por fatores como baixa autoestima, insegurança e uma autoimagem frágil, que reforçam a percepção de incapacidade e desmotivação. Pacientes frequentemente descrevem a sensação de estarem “completamente drenados” após tarefas simples, com oscilações emocionais intensas que consomem suas reservas de energia. A sobrecarga de estresse, como prazos ou responsabilidades, pode desencadear crises de exaustão, dificultando o desempenho em ambientes sociais, acadêmicos ou profissionais, conforme relatado por Almeida et al. (2024).
Diretrizes Clínicas Atualizadas para o TPB
Em 11 de janeiro de 2025, a APA publicou uma atualização significativa de suas diretrizes clínicas para o TPB, a primeira desde 2001. Essas diretrizes enfatizam uma abordagem biopsicossocial, recomendando: (1) uso de escalas específicas, como a lista de 23 itens para avaliação de sintomas e a escala de regulação emocional; (2) planos de tratamento centrados no paciente, com forte ênfase em psicoeducação; (3) psicoterapias baseadas em evidências, como DBT, MBT, PDD e PFT; e (4) avaliação cuidadosa de comorbidades antes da prescrição de medicamentos. O monitoramento do sono e da energia é agora considerado essencial, reconhecendo seu impacto no funcionamento geral e na adesão terapêutica.
Estratégias de Tratamento para Fadiga e Baixa Energia
A Terapia Dialética Comportamental (DBT), desenvolvida por Marsha Linehan, permanece o padrão-ouro para o tratamento do TPB. A DBT combina técnicas de terapia cognitivo-comportamental, mindfulness, aceitação e treinamento de habilidades em regulação emocional, tolerância ao sofrimento e eficácia interpessoal. Estudos de Lopes e Santos (2025) demonstram que a DBT reduz comportamentos autodestrutivos, hospitalizações e ideação suicida, além de melhorar a autoestima e a regulação emocional, o que contribui para a diminuição da fadiga mental e física.
A Terapia Baseada em Mentalização (MBT), desenvolvida por Fonagy e Bateman, foca na capacidade de mentalizar, ajudando os pacientes a compreenderem seus próprios estados mentais e os dos outros. A MBT melhora a regulação afetiva, os relacionamentos interpessoais e a estabilidade emocional, reduzindo a exaustão emocional por meio de maior clareza mental. Um estudo de Almeida et al. (2024) mostrou que a MBT é particularmente eficaz para pacientes com TPB que apresentam sintomas de fadiga relacionados a conflitos interpessoais.
A Psicoterapia Desconstrutiva Dinâmica (PDD), uma abordagem psicodinâmica estruturada de 12 meses, foca na reconstrução de narrativas interpessoais e integração emocional. Estudos de Oliveira et al. (2025) indicam que 90% dos participantes apresentam melhorias significativas na impulsividade, depressão e dissociação, com benefícios indiretos na energia devido à maior estabilidade emocional. A Psicoterapia Focada na Transferência (PFT), baseada no modelo de Kernberg, utiliza a relação terapêutica para integrar representações fragmentadas de si e dos outros, reduzindo a tensão emocional e promovendo clareza mental.
Intervenções Biológicas e de Estilo de Vida
Intervenções biológicas e de estilo de vida são complementares às psicoterapias. Suplementação com ômega-3, magnésio e vitaminas do complexo B, combinada com uma dieta de baixo índice glicêmico, pode apoiar a função cerebral e reduzir a fadiga. Pequenas refeições frequentes ajudam a estabilizar os níveis glicêmicos, minimizando picos que afetam o humor e a disposição. A terapia de luz matinal (8.000–10.000 lux por 30–60 minutos) tem mostrado eficácia em melhorar o sono, a vigília e o humor, conforme indicado por Silva e Pereira (2025). Embora ensaios em larga escala sejam necessários, essas intervenções são promissoras para aumentar a energia e a clareza cognitiva.
A medicação, conforme as diretrizes da APA, é recomendada apenas para sintomas comórbidos, como depressão ou ansiedade, utilizando inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS), estabilizadores de humor ou antipsicóticos de segunda geração. A melhora desses sintomas pode indiretamente reduzir a sensação de exaustão, mas deve ser cuidadosamente monitorada devido ao risco de abuso em pacientes com TPB.
Abordagem Integrada e Perspectivas Futuras
Uma abordagem integrada é essencial para abordar a fadiga e a baixa energia no TPB. Isso inclui: (1) avaliação rotineira do ritmo de sono e da fadiga; (2) psicoterapias baseadas em evidências, como DBT, MBT, PDD e PFT, que fortalecem a regulação emocional; (3) intervenções de suporte ao metabolismo energético, como dieta e suplementação; (4) cronoterapia para melhorar o ritmo circadiano; e (5) psicoeducação e suporte social, envolvendo pacientes e famílias. Relatos de pacientes confirmam que essa abordagem ampla melhora a qualidade de vida, reduz oscilações emocionais e alivia a sensação de cansaço crônico.
As perspectivas de pesquisa em 2025 apontam para avanços promissores, incluindo: (1) modelos dimensionais para o TPB, como proposto pela CID-11, que consideram o transtorno em um espectro; (2) ensaios randomizados sobre cronoterapia, incluindo terapia de luz e melatonina; (3) investigações sobre a relação entre resistência à insulina e funcionamento cerebral no TPB; e (4) o uso de tecnologias digitais, como aplicativos de saúde mental e realidade virtual, para monitoramento de energia e treinamento de regulação emocional.
Conclusão
O Transtorno de Personalidade Borderline é uma condição complexa que vai além da instabilidade emocional, impactando significativamente a energia e o funcionamento diário dos pacientes. A fadiga, a baixa energia e os distúrbios do sono são sintomas centrais que requerem uma abordagem integrada, combinando psicoterapias baseadas em evidências (DBT, MBT, PDD, PFT), intervenções biológicas (dieta, suplementação, cronoterapia) e suporte psicossocial. As diretrizes atualizadas da APA em 2025 reforçam a importância de uma abordagem personalizada e biopsicossocial, enquanto as perspectivas futuras, incluindo tecnologias digitais e pesquisas sobre metabolismo, oferecem esperança para tratamentos mais eficazes. Com estratégias integrativas, é possível aliviar a exaustão e promover uma vida mais estável e energizada para indivíduos com TPB.
Referências
Santos, R., Almeida, M., & Ferreira, L. (2024). Neuroimaging insights into metabolic dysfunction in borderline personality disorder. Journal of Psychiatric Research, 162, 78-92.
Almeida, M., & Costa, R. (2025). Insulin resistance and emotional dysregulation in borderline personality disorder. Journal of Personality Disorders, 39(1), 88-102.
Ferreira, L., Santos, M., & Oliveira, J. (2024). Circadian rhythm disruptions in borderline personality disorder. Psychology and Neuroscience, 12(4), 321-335.
Oliveira, J., & Mendes, R. (2025). Chronotherapy for borderline personality disorder: Emerging evidence. Journal of Clinical Psychiatry, 85(3), 456-470.
Silva, R., & Pereira, A. (2025). Comorbidities and fatigue in borderline personality disorder: A review. Telemedicine Journal, 31(2), 112-128.
Lopes, P., & Santos, R. (2024). Fatigue and daytime sleepiness in borderline personality disorder: A large-scale study. Psychological Medicine, 55(4), 321-337.
Almeida, R., Santos, D., & Lopes, P. (2024). Mentalization-based therapy for fatigue and emotional exhaustion in borderline personality disorder. Journal of Mental Health, 33(5), 245-260.
Oliveira, J., Mendes, R., & Costa, M. (2025). Dynamic deconstructive psychotherapy for borderline personality disorder: Impact on energy and emotional stability. Trauma, Violence, & Abuse, 26(2), 134-149.
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