Narcisismo no Brasil: Causas, Impactos e Pesquisas

Narcisismo no Brasil: Causas, Impactos e Pesquisas

Ilustração representando o narcisismo grandioso e seus impactos emocionais

Uma pesquisa conjunta realizada por universidades da Suíça, Alemanha e Nova Zelândia trouxe novas luzes sobre os impactos sociais e emocionais do narcisismo, especialmente em sua forma grandiosa. O estudo, publicado recentemente em uma revista científica de psicologia, acompanhou centenas de participantes ao longo de vários anos e analisou como características narcisistas influenciam a percepção de pertencimento e as relações interpessoais. Os pesquisadores observaram que, embora o narcisismo grandioso esteja associado a uma imagem inflada de si mesmo, autoconfiança exagerada e necessidade constante de admiração, ele também pode gerar uma profunda sensação de solidão.
Os indivíduos com traços narcisistas elevados demonstraram uma sensibilidade extrema à rejeição e críticas, o que os leva frequentemente a interpretar de forma negativa interações sociais neutras ou até positivas. Essa percepção distorcida faz com que evitem vínculos mais íntimos ou adotem atitudes defensivas e agressivas, afastando ainda mais os outros. Com isso, cria-se um ciclo vicioso: o medo de rejeição leva ao isolamento, que por sua vez reforça os comportamentos narcisistas como forma de autoproteção. O estudo ressalta ainda que essa solidão não é sempre visível para quem está de fora, pois muitos narcisistas mantêm uma aparência de popularidade e sucesso, embora internamente se sintam incompreendidos e solitários. A pesquisa destaca a importância de terapias voltadas para a empatia e a autorreflexão como formas eficazes de quebrar esse ciclo e promover relacionamentos mais saudáveis.

A Origem do Narcisismo Segundo Pesquisas no Brasil

O narcisismo, traço de personalidade caracterizado por grandiosidade, necessidade de admiração e falta de empatia, tem sido alvo de estudos psicológicos no Brasil, buscando entender suas causas e manifestações na sociedade contemporânea. Pesquisas nacionais apontam para uma combinação de fatores biológicos, sociais e culturais na formação desse padrão comportamental.

Fatores que Influenciam o Narcisismo no Contexto Brasileiro

  1. Criação Parental e Educação
    • Estudos realizados em universidades brasileiras, como USP e UFRJ, sugerem que pais superprotetores ou excessivamente críticos podem contribuir para o desenvolvimento de traços narcisistas.
    • Crianças muito elogiadas sem mérito real ou, ao contrário, extremamente cobradas, tendem a desenvolver uma autoimagem distorcida, oscilando entre superioridade e insegurança.
  2. Influência das Redes Sociais
    • Pesquisas da FGV e PUC-Rio indicam que o uso excessivo de plataformas como Instagram e TikTok está associado a maiores níveis de narcisismo, especialmente entre jovens.
    • A cultura da “selfie”, likes e validação virtual reforça a necessidade de autoafirmação constante, um dos pilares do narcisismo.
  3. Fatores Culturais e Sociais
    • O Brasil, como sociedade coletivista em transição para valores mais individualistas, apresenta um terreno fértil para o narcisismo.
    • A valorização excessiva da imagem pessoal, comum em culturas de celebridades e influenciadores digitais, contribui para a normalização de comportamentos narcisistas.
  4. Diferenças de Gênero
    • Alguns estudos brasileiros, como os da UFMG, mostram que homens tendem a pontuar mais alto em traços de grandiosidade, enquanto mulheres podem apresentar maior vulnerabilidade narcisista (medo de rejeição e busca por aprovação).

Consequências do Narcisismo na Sociedade Brasileira

  • Relacionamentos Tóxicos: Pessoas com alto narcisismo têm maior propensão a relacionamentos abusivos e manipuladores.
  • Ambientes de Trabalho Conturbados: Líderes narcisistas podem ser carismáticos, mas também autoritários e pouco colaborativos.
  • Saúde Mental: O narcisismo patológico está associado a transtornos como depressão e ansiedade quando a autoimagem é ameaçada.

O Futuro das Pesquisas sobre Narcisismo no Brasil

Novos estudos estão investigando como a pandemia e o isolamento social afetaram o narcisismo, além do impacto de algoritmos de redes sociais na autoimagem das gerações mais jovens. A tendência é que o tema ganhe ainda mais relevância na psicologia e na sociologia brasileira.
 

O Narcisismo à Luz do Estádio do Espelho em Lacan

Para Jacques Lacan, a compreensão do narcisismo passa, inevitavelmente, pelo conceito do Estádio do Espelho, momento estruturante da constituição do eu. Nesse estágio, o sujeito se reconhece pela primeira vez em uma imagem externa, que lhe devolve uma sensação ilusória de totalidade e domínio. Esse reconhecimento não é neutro: ele inaugura uma alienação fundamental, pois o eu se forma a partir de algo que está fora de si. No contexto do narcisismo contemporâneo, especialmente observado no Brasil, essa dinâmica se intensifica na relação com imagens digitais, redes sociais e validação constante. O sujeito passa a investir libidinalmente na imagem idealizada de si mesmo, buscando sustentação simbólica para um eu estruturalmente frágil. Essa fragilidade aparece clinicamente em crises de autoestima, intolerância à frustração e dependência do olhar do outro. Em muitos atendimentos psicológicos, observa-se que o sofrimento narcisista não está na falta de amor próprio, mas no excesso de identificação com uma imagem ideal impossível de sustentar. Lacan nos ajuda a entender que o narcisismo não é apenas vaidade, mas uma tentativa desesperada de tamponar a falta constitutiva do sujeito. Esse entendimento é essencial para diferenciar traços adaptativos de manifestações patológicas, sobretudo em quadros que se aproximam do Transtorno de Personalidade Borderline, frequentemente abordado em contextos clínicos especializados.

O Eu Ideal, o Ideal do Eu e o Sofrimento Narcísico

Lacan distingue dois conceitos fundamentais para a clínica do narcisismo: o Eu Ideal e o Ideal do Eu. O Eu Ideal corresponde à imagem especular, perfeita, imaginária, com a qual o sujeito se identifica. Já o Ideal do Eu é uma instância simbólica, ligada à linguagem, à lei e ao olhar do Outro. No narcisismo patológico, há um predomínio do Eu Ideal em detrimento do Ideal do Eu, o que gera uma relação rígida e persecutória com a própria imagem. O sujeito se sente constantemente aquém do ideal que construiu, vivendo em um estado permanente de cobrança e vergonha. Clinicamente, isso se manifesta por sentimentos de vazio, irritabilidade e colapsos emocionais diante de críticas mínimas. No Brasil, esse sofrimento tem se intensificado em função de uma cultura que valoriza desempenho, aparência e sucesso rápido. Muitos pacientes chegam ao consultório após experiências de fracasso profissional ou rejeições afetivas, interpretadas como ataques diretos à sua identidade. A escuta clínica orientada pela psicanálise lacaniana permite deslocar o sujeito da prisão imaginária do Eu Ideal, abrindo espaço para a construção de um Ideal do Eu mais flexível e simbólico. Esse processo exige tempo, transferência e um enquadre ético rigoroso, conforme orientações do Conselho Federal de Psicologia. A psicoterapia torna-se, assim, um espaço de reconstrução subjetiva, e não de reforço da imagem.

Narcisismo, Falta e o Desejo do Outro

Na teoria lacaniana, o desejo humano é sempre desejo do Outro. O sujeito deseja ser desejado, reconhecido e validado. No narcisismo, essa dinâmica assume uma forma extrema: o outro deixa de ser um sujeito e passa a funcionar como um espelho que deve confirmar a imagem idealizada. Quando essa função falha, surgem reações intensas de raiva, desprezo ou retraimento. Essa lógica explica por que relações com indivíduos narcisistas tendem a ser marcadas por instabilidade e rupturas abruptas. Do ponto de vista clínico, é comum observar vínculos baseados mais na necessidade de reconhecimento do que no encontro genuíno entre dois sujeitos. A falta, conceito central em Lacan, é vivida pelo narcisista como algo intolerável, algo que precisa ser negado ou mascarado. Em vez de aceitar a incompletude estrutural, o sujeito busca incessantemente objetos, pessoas ou status que prometem preenchimento. Esse movimento, no entanto, está fadado à repetição e ao fracasso. Trabalhar a noção de falta em terapia é um dos maiores desafios clínicos, especialmente em pacientes que resistem à simbolização da perda. Recursos complementares e informações em saúde mental podem ser encontrados no Ministério da Saúde, mas é na escuta singular que o sujeito pode ressignificar sua relação com o desejo e com o outro.

O Narcisismo e a Clínica do Vazio

Muitos pacientes com funcionamento narcisista não chegam à terapia queixando-se de vaidade ou arrogância, mas de um profundo sentimento de vazio. Lacan compreende esse vazio como efeito da dificuldade de simbolizar a falta. Sem recursos simbólicos suficientes, o sujeito tenta preencher o vazio com objetos imaginários: consumo, reconhecimento social, relações idealizadas. No Brasil, observa-se um aumento significativo desse tipo de sofrimento, especialmente entre adultos jovens, pressionados por ideais de sucesso e felicidade permanente. A clínica do vazio exige do terapeuta uma escuta que vá além da demanda explícita, muitas vezes centrada em sintomas como ansiedade ou depressão. O trabalho analítico busca permitir que o sujeito encontre palavras para aquilo que antes era vivido apenas como angústia difusa. Esse processo é delicado e requer uma posição ética clara do analista, que não deve ocupar o lugar de ideal, mas sustentar a falta como motor do desejo. Em contextos de maior gravidade, como quando há comorbidades com transtornos de personalidade, a articulação com serviços especializados, como os descritos em atendimentos interdisciplinares, pode ser fundamental.

Narcisismo, Linguagem e Laço Social

Para Lacan, o inconsciente é estruturado como uma linguagem. Isso significa que o sofrimento psíquico se manifesta e se organiza por meio do discurso. No narcisismo, observa-se frequentemente um discurso autocentrado, marcado por comparações constantes e pela necessidade de afirmação. O laço social fica empobrecido, pois o outro é reduzido a uma função instrumental. Essa dinâmica tem impactos diretos na vida profissional, afetiva e familiar. Em atendimentos clínicos, é comum ouvir relatos de conflitos recorrentes no trabalho, dificuldades em manter amizades e relações amorosas instáveis. A psicanálise não busca moralizar esses comportamentos, mas compreendê-los como formações defensivas diante da angústia. Ao longo do processo terapêutico, o sujeito é convidado a escutar o próprio discurso, identificando repetições e impasses. Essa escuta pode abrir caminho para novas formas de laço, menos baseadas na imagem e mais sustentadas pela palavra. Grupos terapêuticos e espaços de troca, como os divulgados em iniciativas de apoio psicológico, podem complementar esse trabalho, desde que não substituam a escuta clínica individual.

A Diferença entre Narcisismo e Estruturas Borderline

Embora compartilhem algumas manifestações, como instabilidade emocional e dificuldades relacionais, o narcisismo e o Transtorno de Personalidade Borderline possuem diferenças estruturais importantes. Lacan nos ajuda a compreender essas distinções ao enfatizar a relação do sujeito com o Outro e com a falta. No narcisismo, a defesa principal está na idealização do eu; no borderline, observa-se uma oscilação intensa entre idealização e desvalorização do outro. Essa diferença tem implicações diretas no manejo clínico. Confundir essas estruturas pode levar a intervenções inadequadas e ao aumento do sofrimento do paciente. Por isso, a formação contínua do profissional e o acesso a referências confiáveis, como publicações da SciELO Brasil, são essenciais. Em contextos clínicos especializados, como os apresentados em centros focados em transtornos de personalidade, essa diferenciação é trabalhada de forma cuidadosa, respeitando a singularidade de cada sujeito.

O Manejo Clínico do Narcisismo na Psicanálise Lacaniana

O manejo clínico do narcisismo exige do analista uma posição ética firme e uma atenção constante à transferência. Pacientes com funcionamento narcisista tendem a testar os limites do enquadre, buscando reconhecimento ou confrontando o terapeuta. A resposta do analista não deve reforçar o Eu Ideal do paciente, mas sustentar a função simbólica da palavra. Isso implica, muitas vezes, tolerar silêncios, frustrações e resistências sem ceder à tentação de oferecer soluções rápidas. O objetivo não é destruir as defesas narcisistas, mas permitir que o sujeito encontre outras formas de lidar com a falta. Esse trabalho é gradual e pode gerar avanços significativos na capacidade de estabelecer vínculos mais estáveis e satisfatórios. Informações sobre ética profissional e boas práticas podem ser consultadas em diretrizes de atuação clínica, reforçando a importância de um cuidado responsável e comprometido com o bem-estar psíquico.

Narcisismo, Cultura e Subjetividade no Brasil Atual

Pensar o narcisismo a partir de Lacan implica situá-lo no contexto cultural em que o sujeito está inserido. No Brasil contemporâneo, marcado por desigualdades sociais, hiperexposição digital e instabilidade econômica, o investimento na imagem pode funcionar como uma tentativa de garantir consistência subjetiva. No entanto, essa estratégia cobra um preço alto em termos de saúde mental. A clínica psicanalítica oferece um espaço privilegiado para questionar esses imperativos culturais, permitindo que o sujeito se separe, ao menos parcialmente, das exigências do ideal social. Esse movimento não é simples, mas pode abrir caminho para uma relação mais ética consigo mesmo e com o outro. Para quem busca compreender melhor sua história e seus modos de sofrimento, informações institucionais e caminhos de contato estão disponíveis em páginas institucionais de orientação e canais de atendimento.

Conclusão

O narcisismo no Brasil é um fenômeno multifatorial, influenciado pela educação, cultura digital e mudanças sociais. Embora traços narcisistas possam ser adaptativos em certos contextos, seu excesso pode gerar prejuízos individuais e coletivos. Pesquisas nacionais continuam a explorar esse tema, buscando estratégias para equilibrar autoestima saudável e empatia em uma era cada vez mais individualista.

Marcelo Paschoal Pizzut

Psicólogo Clínico | CRP 07/26008
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