As Inúmeras Crises de um Borderline

As Inúmeras Crises de um Borderline: Fases, Habilidades e o Caminho Rumo à Estabilização Emocional

Ontem, depois de um bom tempo sem crise — daqueles períodos que parecem quase “normais” —, eu tive uma. Sim, uma crise forte, daquelas que fazem o peito apertar, a mente girar em loops de desespero e raiva, e o corpo querer sumir ou explodir. Eu sou psicólogo. Atendo pessoas com Transtorno de Personalidade Borderline (TPB) há anos. E, sim, também sou borderline.

Muitos de nós sabemos: o TPB não tem cura. Não é uma doença que desaparece com uma cirurgia ou um antibiótico. Mas existe estabilização. Uma vida em que as crises deixam de ser diárias, deixam de dominar tudo, deixam de ser o centro da existência. No meu caso, depois de anos de terapia, ajustes medicamentosos (que nunca foram mágicos, mas ajudaram a baixar o volume da tempestade interna), e principalmente muita prática intencional, hoje minhas crises acontecem, em média, a cada três meses. Às vezes mais, às vezes menos. Mas nunca mais diariamente.

E sabe o que é mais estranho (e libertador) nisso tudo? Eu fico genuinamente feliz com esse progresso. Parece absurdo dizer isso em voz alta — “fico feliz por ter crise só a cada três meses” —, mas é verdade. Porque quem viveu o inferno das crises diárias, das hospitalizações, das tentativas de suicídio, das relações que implodiam em horas, sabe que três meses de relativa paz emocional é uma vitória gigantesca. É prova viva de que mudança é possível, mesmo quando o cérebro grita o contrário.

Neste texto, quero falar exatamente sobre isso: as inúmeras crises de um borderline, as fases pelas quais quase todos passamos, as habilidades que precisamos (e podemos) adquirir, e o objetivo final — a estabilização. Vou trazer um pouco da visão psicanalítica sobre o TPB, explicar como a Terapia Comportamental Dialética (DBT) mudou o jogo para milhares de pessoas (inclusive para mim), e finalizar com uma mensagem realista, mas profundamente esperançosa.

O que a psicanálise explica sobre o Transtorno de Personalidade Borderline?

A psicanálise foi uma das primeiras abordagens a tentar compreender o que hoje chamamos de TPB. Desde os anos 1930–1940, autores como Adolph Stern, Helene Deutsch e, especialmente, Otto Kernberg (um dos maiores teóricos do tema) começaram a descrever esses pacientes como estando em uma “organização borderline da personalidade”.

Para Kernberg, o borderline não é apenas um conjunto de sintomas (instabilidade afetiva, impulsividade, medo de abandono, autoimagem instável). É uma estrutura psíquica específica, intermediária entre a neurose e a psicose. O que diferencia o borderline da psicose é que ele mantém o teste de realidade (sabe distinguir fantasia de realidade na maior parte do tempo). Mas o que o diferencia da neurose é a difusão de identidade e o uso predominante de defesas primitivas.

As principais defesas primitivas no borderline, segundo Kernberg, são:

  • Clivagem (splitting): o mundo (e o próprio self) é dividido em “tudo bom” ou “tudo mau”. Não existe meio-termo. Uma pessoa que hoje é idealizada amanhã pode ser totalmente desvalorizada. Isso explica os relacionamentos intensos e instáveis tão típicos do TPB.
  • Identificação projetiva: o sujeito projeta sentimentos intoleráveis em outra pessoa e depois interage com essa projeção como se ela fosse real. Exemplo: “Você me odeia” (quando na verdade é o borderline quem está sentindo ódio intenso e não consegue reconhecer isso como seu).
  • Negação, onipotência e desvalorização primitiva: mecanismos que protegem de uma angústia insuportável, mas mantêm o indivíduo preso em relações caóticas.

Kernberg entende que essa organização surge de uma combinação de fatores: uma agressão inata intensa (temperamento), somada a experiências precoces de frustração ou trauma no vínculo com os cuidadores primários. O bebê/criança não consegue integrar aspectos bons e maus do self e do outro, ficando preso em clivagens extremas.

Outros autores psicanalíticos contribuem com nuances importantes:

  • Melanie Klein influenciou Kernberg ao falar das posições esquizoparanóide (clivagem extrema) e depressiva (integração). O borderline fica preso na posição esquizoparanóide, com medo constante de aniquilação ou perseguição.
  • Donald Winnicott enfatiza o conceito de falso self e a importância de um ambiente suficientemente bom que não foi oferecido na infância, gerando um vazio existencial profundo.
  • André Green fala do “pacto narcísico” rompido e da dificuldade em simbolizar a dor, levando a ações (autolesão, impulsos) em vez de representação psíquica.

Em resumo, na visão psicanalítica clássica, o TPB é o resultado de uma falha na integração do self, com defesas primitivas que protegem de um vazio e de uma agressividade interna avassaladora, mas que, ao mesmo tempo, perpetuam o sofrimento. A psicanálise ajuda a compreender as raízes profundas, mas, sozinha, costuma ser lenta e difícil para pacientes em crise aguda — daí a importância de abordagens mais estruturadas e diretivas, como veremos a seguir.

Como a Terapia Comportamental Dialética (DBT) pode ajudar o TPB

A DBT, criada por Marsha Linehan nos anos 1980–1990, é hoje considerada o tratamento com maior evidência científica para o Transtorno de Personalidade Borderline. Ela foi desenvolvida especificamente para pessoas com desregulação emocional grave, impulsividade e comportamentos suicidas/parassuicidas.

O modelo da DBT é biossocial: reconhece que o TPB surge da interação entre uma vulnerabilidade biológica (sensibilidade emocional elevada, dificuldade inata de regular emoções) e um ambiente invalidante (onde as emoções da criança eram ignoradas, punidas ou exageradas). Essa combinação leva à desregulação emocional crônica.

A DBT trabalha com dois polos aparentemente opostos (daí o nome “dialética”): aceitação radical (você é como é, e isso faz sentido dado seu histórico) e mudança (você pode e precisa aprender novas formas de lidar com a dor).

O tratamento completo da DBT tem quatro componentes principais:

  1. Psicoterapia individual semanal → foco na hierarquia de comportamentos-alvo (primeiro: parar comportamentos que ameaçam a vida; depois: comportamentos que interferem na terapia; depois: problemas de qualidade de vida).
  2. Treinamento de habilidades em grupo → o coração da DBT.
  3. Coaching telefônico → suporte em crise para generalizar habilidades.
  4. Equipe de consultoria → para os terapeutas (porque atender borderline exige muito do profissional).

O treinamento de habilidades é dividido em quatro módulos principais:

  1. Mindfulness (atenção plena) A base de tudo. Ensina a observar pensamentos, emoções e sensações sem julgamento, sem tentar escapar. Habilidades como “o que” (observar, descrever, participar) e “como” (não julgar, fazer uma coisa de cada vez, mente eficaz).
  2. Tolerância ao desconforto (ou tolerância ao mal-estar) Quando a emoção é insuportável e não pode ser mudada no momento, como tolerar sem agir impulsivamente? Técnicas como distração, auto-acalmar, melhorar o momento, e habilidades de sobrevivência em crise (TIPP: temperatura, exercício intenso, respiração ritmada, relaxamento muscular progressivo).
  3. Regulação Emocional Aprender a identificar, nomear, compreender e modular emoções. Técnicas como verificar fatos (a emoção é justificada?), oposto da ação (agir contrário à emoção), construir emoções positivas a longo prazo, e reduzir vulnerabilidade emocional (PLEASE: tratar doenças físicas, dormir, comer, evitar álcool/drogas, exercício).
  4. Efetividade Interpessoal Como pedir o que precisa, dizer não, manter auto-respeito, lidar com relacionamentos difíceis sem explodir nem se submeter. Técnicas famosas: DEAR MAN (descrever, expressar, afirmar, reforçar, mente consciente, aparência confiante, negociar), GIVE (gentil, interessado, validar, fácil na mente), FAST (justo, sem desculpas, assertivo, verdade).

Esses módulos não são só “dicas”. São treinados de forma repetitiva, como se fosse uma academia emocional. O paciente pratica em casa, traz exemplos, recebe feedback. Com o tempo, essas habilidades vão substituindo as respostas impulsivas antigas.

Minha experiência pessoal: da crise diária para a crise trimestral

No início do meu tratamento, eu vivia em modo de sobrevivência. Crises diárias eram a regra. Uma discussão, um olhar torto, um silêncio prolongado — tudo virava gatilho para desespero, raiva, impulsos. Eu alternava entre idealizar e odiar as pessoas em questão de horas.

Com a DBT, aos poucos, comecei a notar mudanças reais:

  • Aprendi a pausar antes de reagir (mindfulness).
  • Desenvolvi um “kit de crise” com técnicas de tolerância ao desconforto (banho gelado, música alta, caminhada rápida).
  • Comecei a nomear emoções em vez de ser engolido por elas (“estou sentindo ódio + abandono + vergonha agora”).
  • Aprimorei a comunicação: pedir espaço sem atacar, dizer “não” sem culpa avassaladora.

Os medicamentos (estabilizadores de humor + antidepressivo) ajudaram a reduzir a intensidade basal da reatividade. Mas foram as habilidades que fizeram a diferença na frequência e na gravidade das crises.

Hoje, quando uma crise vem (como ontem), eu sei que ela vai passar. Eu consigo usar as ferramentas. Eu consigo pedir ajuda sem me sentir um fardo. E, principalmente, eu consigo depois da crise, olhar para trás e pensar: “Eu sobrevivi. E aprendi algo novo sobre mim”.

Por que ter crises de vez em quando ainda é importante?

Ter crises esporádicas não é fracasso. É parte do processo. Cada crise, quando bem atravessada, serve como um laboratório vivo para:

  • Resignificar quem eu sou (“Eu não sou apenas o caos; eu sou alguém que consegue atravessar o caos”).
  • Reconhecer meus limites reais (“Posso aguentar X, mas preciso de Y para não colapsar”).
  • Testar minha capacidade de mudança (“Da última vez eu me autolesionei; desta vez eu usei tolerância ao desconforto e sobrevivi”).

As crises espaçadas mostram que o sistema nervoso está aprendendo a se recuperar mais rápido. Elas provam que a regulação emocional está se fortalecendo.

Finalizando: a DBT como chave para a estabilização e a possibilidade de felicidade

Hoje, a Terapia Comportamental Dialética é, sem dúvida, a ferramenta mais poderosa e baseada em evidências para alcançar a estabilização no TPB. Ela não promete eliminar as emoções intensas (isso seria impossível e até indesejável). Ela ensina a dançar com elas em vez de ser arrastado.

O caminho do borderline é cheio de fases. Quase todos passamos por:

  • Fase 1: sobrevivência (crises diárias, risco de vida alto).
  • Fase 2: aquisição de habilidades (aprendizado intenso, recaídas frequentes).
  • Fase 3: generalização (crises menos frequentes, mais controle).
  • Fase 4: construção de uma vida que valha a pena (relacionamentos mais estáveis, objetivos próprios, senso de propósito).

Nem todo mundo chega à fase 4. Mas muitos chegam. E a felicidade — sim, a felicidade — é possível. Não é a felicidade de quem nunca sofreu. É uma felicidade mais madura, mais consciente, mais profunda. Uma felicidade que sabe que a tempestade pode voltar, mas que hoje existem âncoras, ferramentas e pessoas que ajudam a atravessá-la.

Se você está lendo isso e se identifica, saiba: não é fácil. Exige coragem imensa. Exige continuar quando tudo diz para desistir. Mas exige também que você se dê crédito por cada pequeno passo.

A estabilização não é o fim das crises. É o começo de uma vida onde as crises não definem mais quem você é.

E isso, para mim, é motivo de uma alegria quieta, mas muito real.

Você consegue. Nós conseguimos. Juntos, um dia de cada vez.






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