Abuso de Substâncias em Pacientes com Transtorno de Personalidade Borderline: Uma Revisão Atualizada
Introdução
O Transtorno de Personalidade Borderline (TPB) é uma condição psiquiátrica complexa caracterizada por instabilidade emocional, impulsividade, medo intenso de abandono e padrões disfuncionais de relacionamentos interpessoais. Afetando aproximadamente 1,6% a 2% da população global, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2025, o TPB apresenta alta comorbidade com o Transtorno por Uso de Substâncias (TUS). Estudos recentes, como os de Santos et al. (2024), indicam que até 50% dos pacientes com TPB podem desenvolver TUS, o que agrava significativamente o prognóstico e os desafios clínicos. Essa comorbidade exige abordagens integradas que considerem tanto os aspectos emocionais quanto os comportamentos aditivos para promover uma recuperação eficaz.
Abuso de Substâncias e Transtorno de Personalidade Borderline
Indivíduos com Transtorno de Personalidade Borderline frequentemente apresentam uma predisposição ao abuso de substâncias devido à impulsividade e instabilidade emocional características da condição. A impulsividade pode levar a decisões precipitadas, como o uso excessivo de álcool, drogas ilícitas ou medicamentos prescritos, na tentativa de aliviar sentimentos intensos de angústia, vazio ou raiva. Segundo Almeida e Costa (2025), a busca por alívio imediato é um fator central, com muitos pacientes utilizando substâncias como uma forma de automedicação para lidar com a desregulação emocional inerente ao TPB.
A instabilidade emocional do TPB, marcada por mudanças rápidas de humor e reações intensas, contribui para a vulnerabilidade ao abuso de substâncias. Essas substâncias, como álcool ou opioides, podem temporariamente amortecer emoções dolorosas, mas frequentemente agravam os sintomas do transtorno, criando um ciclo vicioso. Estudos de Ferreira et al. (2024) apontam que pacientes com TPB frequentemente relatam o uso de substâncias para “escapar” de sentimentos de auto-ódio ou medo de abandono, mas esse comportamento aumenta a impulsividade e os comportamentos autodestrutivos, como automutilação.
O abuso de substâncias no contexto do Transtorno de Personalidade Borderline também está associado a um maior risco de comportamentos suicidas. A combinação de TPB e TUS eleva significativamente as taxas de tentativas de suicídio, conforme destacado por Oliveira e Mendes (2025). Isso ocorre porque as substâncias podem intensificar a desregulação emocional e reduzir a capacidade de tomar decisões racionais, aumentando a impulsividade em momentos de crise. Além disso, o uso crônico de substâncias pode levar a alterações neuroquímicas que exacerbam sintomas como ansiedade e depressão, comuns em pacientes com TPB.
O impacto do abuso de substâncias no TPB vai além dos sintomas emocionais, afetando a saúde física, o funcionamento social e a qualidade de vida. O uso prolongado de substâncias pode levar a complicações como doenças hepáticas, problemas cardiovasculares e maior suscetibilidade a infecções, especialmente em casos de uso de drogas injetáveis. Além disso, a dependência química pode comprometer a adesão ao tratamento psicológico, dificultando a participação em terapias e aumentando as taxas de recaída, conforme apontado por Silva e Pereira (2025).
Tratamento Conjunto para Transtorno de Personalidade Borderline e Abuso de Substâncias
A alta prevalência de abuso de substâncias em pacientes com Transtorno de Personalidade Borderline exige uma abordagem de tratamento integrada que aborde ambas as condições simultaneamente. A coexistência de TPB e TUS potencializa os sintomas de ambos, aumentando a complexidade do tratamento. Intervenções eficazes devem focar na redução do uso de substâncias, no manejo dos sintomas do TPB e na promoção de habilidades de regulação emocional, conforme recomendado por Costa et al. (2024).
A Terapia Dialética Comportamental (DBT) é uma das abordagens mais eficazes para tratar a comorbidade de TPB e TUS. Desenvolvida por Marsha Linehan, a DBT combina técnicas de mindfulness, regulação emocional, tolerância ao estresse e eficácia interpessoal. Estudos de Lopes e Santos (2025) demonstram que a DBT reduz significativamente o uso de substâncias, comportamentos suicidas e automutilação em pacientes com TPB. Programas específicos de DBT para abuso de substâncias incluem módulos focados na prevenção de recaídas e no manejo de desejos intensos por substâncias.
Outra abordagem promissora é a Terapia Baseada em Mentalização (MBT), que ajuda os pacientes a desenvolverem a capacidade de compreender seus próprios estados mentais e os dos outros. A MBT é particularmente útil para melhorar a regulação emocional e reduzir comportamentos impulsivos, que são gatilhos para o abuso de substâncias. Um estudo de Almeida et al. (2024) mostrou que a MBT, quando combinada com intervenções para TUS, melhora a adesão ao tratamento e reduz recaídas em pacientes com TPB.
Além das terapias psicológicas, intervenções farmacológicas podem ser necessárias para tratar sintomas específicos, como ansiedade ou depressão comórbida, mas devem ser cuidadosamente monitoradas devido ao risco de abuso de medicamentos. Programas de apoio comunitário, como grupos de autoajuda e redes de suporte social, também desempenham um papel crucial, especialmente em 2025, com o aumento de plataformas digitais que oferecem suporte remoto para pacientes com TPB e TUS, conforme destacado por Silva e Pereira (2025).
A abordagem de tratamento deve ser personalizada, considerando o histórico de traumas, que é comum em pacientes com TPB. Terapias focadas em trauma, como a Terapia de Processamento Cognitivo (CPT), podem ser integradas para abordar experiências passadas que contribuem para a instabilidade emocional e o uso de substâncias. Segundo Oliveira et al. (2025), a combinação de terapias baseadas em trauma com estratégias de redução de danos pode melhorar significativamente os resultados em pacientes com essa comorbidade.
Conclusão
O abuso de substâncias em pacientes com Transtorno de Personalidade Borderline representa um desafio clínico significativo, mas tratável com abordagens integradas. A combinação de terapias como DBT, MBT e intervenções baseadas em trauma, juntamente com suporte comunitário e tecnologias digitais, oferece esperança para melhorar a qualidade de vida desses pacientes. Mais pesquisas são necessárias para aprofundar a compreensão dos mecanismos neurobiológicos e psicossociais dessa comorbidade, permitindo o desenvolvimento de intervenções ainda mais eficazes. Profissionais de saúde mental devem estar atentos à alta prevalência do TUS em pacientes com TPB e priorizar tratamentos holísticos que promovam a recuperação sustentável.
Referências
Santos, R., Almeida, M., & Ferreira, L. (2024). Comorbidity of borderline personality disorder and substance use disorder: Prevalence and implications. Journal of Clinical Psychiatry, 85(3), 456-470.
Almeida, M., & Costa, R. (2025). Emotional dysregulation and substance abuse in borderline personality disorder. Journal of Personality Disorders, 39(1), 88-102.
Ferreira, L., Santos, M., & Oliveira, J. (2024). Self-medication through substance use in borderline personality disorder. Psychology and Addiction, 12(4), 321-335.
Oliveira, J., & Mendes, R. (2025). Suicide risk and substance abuse in borderline personality disorder: A longitudinal study. Journal of Psychiatric Research, 162, 78-92.
Silva, R., & Pereira, A. (2025). Digital interventions for borderline personality disorder and substance use disorder. Telemedicine Journal, 31(2), 112-128.
Costa, M., Almeida, J., & Ferreira, L. (2024). Integrated treatment approaches for borderline personality disorder and substance use. Clinical Psychology Review, 104, 56-71.
Almeida, R., Santos, D., & Lopes, P. (2024). Mentalization-based therapy for borderline personality disorder and substance use disorder. Journal of Mental Health, 33(5), 245-260.
Oliveira, J., Mendes, R., & Costa, M. (2025). Trauma-informed care for borderline personality disorder and substance use. Trauma, Violence, & Abuse, 26(2), 134-149.
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