1. A percepção “distorcida” da realidade no TOC — o que a ciência diz

Por Marcelo Paschoal Pizzut
Psicólogo Clínico
Do ponto de vista científico, a pessoa com TOC não perde o contato com a realidade (como ocorre nas psicoses), mas apresenta uma distorção no processamento da realidade, especialmente no eixo ameaça–certeza–controle.
🔬 Neurociência e cognição
Pesquisas mostram hiperatividade no chamado circuito córtico–estriato–tálamo–cortical (CSTC), envolvendo principalmente:
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Córtex orbitofrontal → avaliação exagerada de risco
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Córtex cingulado anterior → erro percebido constante (“algo está errado”)
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Gânglios da base → dificuldade de “encerrar” ações mentais ou comportamentais
Resultado prático:
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O cérebro detecta ameaça onde ela é mínima ou inexistente
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O sinal de “tarefa concluída” não se consolida
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Surge a sensação persistente de dúvida patológica
👉 Exemplo clássico:
A pessoa sabe racionalmente que trancou a porta, mas não sente que está trancada.
Isso gera uma dissociação entre conhecimento lógico e convicção emocional.
2. Não é delírio — é hiper-realismo ameaçador
Na psicopatologia, dizemos que no TOC ocorre:
Superavaliação da ameaça + intolerância à incerteza + responsabilidade inflada
A percepção da realidade fica enviesada por pensamentos do tipo:
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“E se…?”
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“E se eu estiver errado?”
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“E se houver 1% de chance?”
Cientificamente:
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A realidade não é negada
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Ela é interpretada por um filtro de ansiedade extrema
Por isso, o sujeito reconhece o pensamento como absurdo, mas não consegue descartá-lo emocionalmente.
Esse ponto é crucial para diferenciar TOC de psicose.
3. Onde entra Bion: realidade, pensamento e função alfa
Agora entramos em Bion, que aprofunda exatamente esse fenômeno.
“Wilfred Ruprecht Bion (1897–1979) foi um psicanalista britânico de origem indiana, considerado um dos pensadores mais profundos e inovadores da psicanálise do século XX. Inicialmente médico e neurologista, Bion destacou-se por suas contribuições à teoria das relações de objeto, à psicanálise de grupos e, sobretudo, à compreensão dos processos mentais primitivos. Influenciado por Melanie Klein, ele ampliou o entendimento sobre como a mente lida com experiências emocionais intensas, introduzindo conceitos centrais como a função alfa, os elementos beta, o continente-contido e os ataques ao vínculo. Para Bion, pensar não é algo dado, mas uma capacidade que se desenvolve a partir da possibilidade de transformar experiências emocionais brutas em pensamentos simbólicos. Sua obra é amplamente utilizada para compreender estados mentais de confusão, rigidez psíquica, angústia primitiva e distorções da realidade, sendo especialmente relevante na clínica contemporânea.”
Para Bion, a mente precisa de uma função chamada função alfa, que transforma experiências emocionais brutas (elementos beta) em pensamentos digeríveis.
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Elementos beta → sensações, angústias, tensões sem forma
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Função alfa → capacidade de simbolizar, pensar, tolerar
No TOC, o que acontece?
A ansiedade gera elementos beta excessivos, especialmente ligados ao medo, culpa e responsabilidade.
Como a função alfa falha parcialmente:
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A emoção não vira pensamento simbólico
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Ela retorna como ideia obsessiva concreta
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A compulsão surge como tentativa de evacuar a angústia
👉 Em linguagem bioniana:
A obsessão é um pensamento que não conseguiu se tornar pensamento.
4. Concretização da realidade (Bion + TOC)
Bion dizia que quando a simbolização falha, o sujeito passa a viver num mundo concreto, não simbólico.
No TOC isso aparece assim:
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Pensamentos são vividos como fatos
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Possibilidades são vividas como certezas emocionais
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A mente perde a capacidade de “brincar” com a dúvida
Exemplo:
“Se pensei que posso contaminar alguém, isso significa que posso realmente ter feito isso.”
Não é crença delirante.
É pensamento sem metabolização emocional.
5. Compulsão como evacuação psíquica (Bion)
Bion descreve a evacuação como tentativa de expulsar conteúdos intoleráveis da mente.
No TOC:
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A compulsão não corrige a realidade
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Ela regula o terror interno
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Funciona como um “dreno” de angústia
Lavar as mãos, checar, repetir:
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Não visa certeza real
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Visa alívio psíquico imediato
Mas como não há simbolização, o alívio dura pouco → ciclo obsessivo-compulsivo.
6. Integração ciência + Bion (síntese clara)
Podemos explicar cientificamente assim:
No TOC, a percepção da realidade é distorcida porque o cérebro hiperativa circuitos de ameaça e erro, enquanto, do ponto de vista psicanalítico bioniano, a mente falha em transformar a angústia em pensamento simbólico. O resultado é uma realidade vivida de forma concreta, rígida e ameaçadora, na qual pensamentos são tratados como eventos reais.
7. Implicações clínicas importantes
Essa leitura muda tudo no tratamento:
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❌ Não adianta só discutir lógica
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❌ Não adianta confrontar brutalmente a crença
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✅ É preciso aumentar a capacidade de pensar a emoção
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✅ Desenvolver tolerância à incerteza
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✅ Fortalecer função alfa (mentalização)
É por isso que:
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TCC funciona (reestruturação cognitiva)
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ERP funciona (tolerância ao afeto)
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Psicanálise contemporânea também funciona (quando bem indicada)
8. Por que a mente da pessoa com TOC não consegue “confiar” no que vê ou sente
Uma das maiores angústias de quem vive com Transtorno Obsessivo-Compulsivo é a sensação constante de que não pode confiar na própria percepção. A pessoa olha, confere, revisa, analisa, mas mesmo assim sente que algo está errado. Isso não acontece por falta de inteligência ou atenção, mas porque o cérebro do TOC funciona como um sistema de alarme extremamente sensível. Ele dispara sinais de perigo mesmo quando não existe uma ameaça real. Esse funcionamento faz com que a realidade seja percebida como instável, insegura e sempre duvidosa.
Na prática, isso significa que ver não é o mesmo que acreditar. A pessoa pode olhar para o fogão desligado e, ainda assim, sentir medo de que ele esteja ligado. Pode lavar as mãos corretamente e continuar sentindo que estão sujas. Essa diferença entre o que os olhos veem e o que o corpo sente gera muito sofrimento. Com o tempo, a pessoa passa a desconfiar de si mesma e tenta compensar essa insegurança repetindo comportamentos ou buscando garantias externas.
Esse processo costuma levar ao isolamento emocional e ao cansaço mental. Por isso, o acompanhamento psicológico é fundamental. Um psicólogo especializado ajuda o paciente a entender esse funcionamento e a reconstruir, pouco a pouco, a confiança na própria percepção. Se você quiser entender melhor como funciona esse tipo de cuidado clínico, vale conhecer o trabalho descrito em psicólogo especialista em transtornos complexos e também a proposta clínica apresentada em sobre o atendimento psicológico.
9. A dúvida constante no TOC e o medo de causar algum dano
No TOC, a dúvida não é apenas uma pergunta passageira. Ela se transforma em uma sensação permanente de responsabilidade exagerada. A pessoa sente que, se não pensar em todas as possibilidades, algo ruim pode acontecer e ela será culpada por isso. Esse medo de causar dano, mesmo sem intenção, é um dos núcleos do transtorno. A mente passa a funcionar como se estivesse sempre evitando uma tragédia.
Esse tipo de pensamento aparece em frases internas como: “E se eu machucar alguém sem perceber?”, “E se eu esquecer algo importante?”, “E se minha distração causar um acidente?”. Essas ideias surgem automaticamente e não refletem o desejo real da pessoa. Pelo contrário, mostram o quanto ela se preocupa em não errar. O problema é que o TOC não aceita respostas simples. Nenhuma certeza parece suficiente.
Por isso, a pessoa tenta revisar mentalmente o passado, prever o futuro e controlar o presente ao mesmo tempo. Esse esforço gera exaustão emocional e aumenta ainda mais a ansiedade. O tratamento ajuda a pessoa a aprender que pensar não é o mesmo que agir e que a dúvida faz parte da vida. Informações confiáveis sobre saúde mental também ajudam a reduzir o medo, como as disponíveis no Conselho Federal de Psicologia e no Ministério da Saúde.
10. Pensamentos repetitivos não definem quem a pessoa é
Muitas pessoas com TOC acreditam que seus pensamentos dizem algo negativo sobre quem elas são. Pensam que, por terem ideias ruins, violentas ou estranhas, devem ser pessoas perigosas ou más. Essa é uma das maiores injustiças que o transtorno provoca. Pensamentos não são escolhas. Eles surgem automaticamente, sem pedir permissão.
No TOC, o cérebro produz pensamentos repetitivos justamente sobre aquilo que a pessoa mais teme ou valoriza. Alguém que se importa muito com segurança pode ter pensamentos sobre acidentes. Alguém que valoriza a moral pode ter pensamentos inadequados. Isso não significa desejo oculto, mas medo extremo. O problema é que a pessoa tenta lutar contra esses pensamentos, e quanto mais luta, mais eles voltam.
Aprender a olhar para os pensamentos como eventos mentais, e não como verdades absolutas, é um passo essencial no tratamento. Esse processo é trabalhado em terapia de forma gradual e segura. Se você busca um espaço de acolhimento e orientação, pode conhecer melhor os recursos disponíveis em psicologo-borderline.online e também iniciativas de apoio coletivo como o grupo de ajuda mútua.
11. Por que evitar pensamentos aumenta ainda mais o TOC
Um erro muito comum é tentar expulsar pensamentos ruins da mente. A pessoa diz a si mesma: “Não posso pensar nisso”. O problema é que o cérebro funciona ao contrário. Quanto mais tentamos não pensar em algo, mais aquilo ocupa espaço mental. No TOC, essa tentativa de controle total da mente acaba fortalecendo o ciclo obsessivo.
Isso acontece porque o cérebro interpreta a tentativa de evitar pensamentos como um sinal de perigo. Ele entende que aquele conteúdo é importante e passa a monitorá-lo constantemente. Com isso, o pensamento volta com mais força, acompanhado de ansiedade. A pessoa, então, cria rituais mentais ou comportamentais para aliviar essa tensão, reforçando o ciclo.
O tratamento ensina uma postura diferente: permitir que o pensamento exista sem reagir a ele. Isso não significa concordar ou gostar do pensamento, mas reconhecer que ele é apenas um produto da mente. Estudos publicados em bases científicas como a SciELO Brasil mostram que essa mudança de relação com os pensamentos é fundamental para a melhora dos sintomas.
12. O papel do corpo na ansiedade do TOC
O TOC não acontece apenas na mente. O corpo participa ativamente do transtorno. Quando surge uma obsessão, o corpo reage como se estivesse em perigo real: o coração acelera, a respiração muda, os músculos ficam tensos. Essa reação física reforça a ideia de que algo errado está acontecendo, mesmo que não exista ameaça.
A pessoa passa a interpretar essas sensações físicas como provas de que seus pensamentos são verdadeiros. “Se estou tão ansioso, é porque algo ruim vai acontecer”, pensa. Esse erro de interpretação é comum e compreensível, mas precisa ser trabalhado em terapia. Aprender a reconhecer as reações do corpo como respostas automáticas ajuda a diminuir o medo.
Por isso, muitas abordagens terapêuticas incluem exercícios de respiração, atenção ao corpo e regulação emocional. Em alguns casos, o acompanhamento com psiquiatra também é indicado, especialmente quando os sintomas estão muito intensos. Informações sobre esse cuidado integrado podem ser encontradas em psiquiatra e tratamento medicamentoso.
13. TOC, culpa excessiva e autojulgamento
A culpa é um sentimento muito presente no TOC. A pessoa se sente culpada por pensar, por duvidar e até por sentir ansiedade. Muitas vezes acredita que deveria conseguir controlar melhor a própria mente. Esse autojulgamento constante aumenta o sofrimento e dificulta a recuperação.
É importante entender que o TOC é um transtorno reconhecido, com bases biológicas e psicológicas bem estudadas. Ele não é sinal de fraqueza ou falta de caráter. Quando a pessoa começa a se tratar com mais compreensão, os sintomas tendem a diminuir. A terapia ajuda a substituir a autocrítica por uma postura mais realista e cuidadosa consigo mesmo.
Buscar informações corretas e apoio profissional faz toda a diferença. Também é importante saber quais são os limites e regras do atendimento psicológico, disponíveis em regras do atendimento e canais de contato como página de contato.
14. O papel do apoio social na recuperação do TOC
Viver com TOC pode ser muito solitário. Muitas pessoas escondem seus sintomas por medo de julgamento. Isso aumenta o isolamento e dificulta a busca por ajuda. Ter alguém com quem conversar, que escute sem minimizar a dor, é um fator importante no processo de recuperação.
Grupos de apoio oferecem esse espaço de troca e acolhimento. Ao ouvir outras histórias, a pessoa percebe que não está sozinha e que seus pensamentos não são únicos. Esse reconhecimento reduz a vergonha e fortalece a motivação para o tratamento.
Se você sente que precisa desse tipo de suporte, iniciativas como o grupo gratuito de ajuda mútua podem ser um primeiro passo importante, sempre como complemento e não substituição da terapia profissional.
15. Esperança real: é possível viver melhor com TOC
Apesar do sofrimento intenso que o TOC pode causar, é importante deixar claro: existe tratamento e existe melhora. Muitas pessoas conseguem reduzir significativamente os sintomas e retomar uma vida mais leve e funcional. Isso não acontece de um dia para o outro, mas é um processo possível.
O primeiro passo é entender que o problema não está no caráter da pessoa, mas na forma como o cérebro e a mente estão funcionando naquele momento. Com acompanhamento psicológico adequado, informação de qualidade e apoio, é possível aprender a lidar com os pensamentos sem que eles controlem a vida.
Buscar ajuda é um ato de coragem. Se você sente que precisa conversar com um profissional ou entender melhor seu funcionamento emocional, conheça os conteúdos disponíveis em psicologo-borderline.online e permita-se dar esse passo com cuidado e respeito por si mesmo.
