A Analogia dos “Macacos Voadores” no Narcisismo: Extensões Invisíveis do Controle Manipulador

A metáfora dos “macacos voadores” (flying monkeys, em inglês) tornou-se um dos conceitos mais poderosos e reconhecidos na literatura contemporânea sobre abuso narcisista. Inspirada nos servos alados da Bruxa Má do Oeste no clássico O Mágico de Oz (1939), a expressão descreve pessoas que, consciente ou inconscientemente, são recrutadas por indivíduos com traços narcisistas graves para executar tarefas manipuladoras, difamatórias ou abusivas em seu nome. Esses “macacos” atuam como extensões do narcisista, permitindo que ele mantenha as mãos “limpas” enquanto amplia seu alcance de controle, intimidação e vingança.
Em relacionamentos abusivos, familiares tóxicos, ambientes de trabalho disfuncionais ou mesmo círculos sociais, os macacos voadores representam um dos mecanismos mais destrutivos do narcisismo maligno: o abuso por procuração (abuse by proxy). Eles espalham boatos, invalidam a realidade da vítima, pressionam por reconciliação forçada, coletam informações ou isolam emocionalmente o alvo, tudo isso frequentemente sem plena consciência do papel que desempenham.
1. Origem da Metáfora
Embora popularmente associada ao filme O Mágico de Oz (dirigido por Victor Fleming), onde os macacos voadores obedecem cegamente à Bruxa Má do Oeste, o termo como conhecemos hoje na psicologia popular foi cunhado pelo psicólogo israelense Sam Vaknin no final da década de 1980/início dos 1990. Vaknin, um dos primeiros a sistematizar conceitos sobre narcisismo patológico antes mesmo da ampla difusão do termo “abuso narcisista”, usou a imagem dos macacos voadores para descrever pessoas que agem como agentes indiretos de um narcisista.
Curiosamente, algumas fontes brasileiras e internacionais contestam a origem exclusiva no filme, apontando que Vaknin teria se inspirado também nos macacos reais de Lopburi (Tailândia), que invadiram a cidade e criaram caos organizado — uma metáfora perfeita para o “trabalho sujo” coordenado à distância.
Independentemente da origem exata, a analogia ganhou tração global a partir dos anos 2010, especialmente em comunidades online de sobreviventes de abuso narcisista (fóruns como Reddit/r/raisedbynarcissists, blogs especializados e livros de autoajuda). Hoje, é amplamente aceita em contextos terapêuticos informais e em publicações de psicologia popular, embora ainda não apareça como termo técnico formal no DSM-5 ou CID-11.
2. Função dos “Macacos Voadores” no Narcisismo
Os macacos voadores servem a múltiplas finalidades estratégicas no arsenal do narcisista:
- Instrumentos de manipulação e difamação Espalham rumores, mentiras ou versões distorcidas dos fatos. Exemplo clássico: após um término, o narcisista convence familiares da vítima de que ela é “instável”, “vingativa” ou “histérica”, transformando-a em vilã.
- Desvio de responsabilidade O narcisista evita ser diretamente associado às ações mais agressivas. Enquanto ele mantém a fachada de vítima ou pessoa “razoável”, os macacos voadores executam o ataque.
- Isolamento da vítima Criam dúvida nos amigos, familiares e colegas sobre a sanidade ou credibilidade da vítima, levando-a a questionar sua própria percepção (efeito combinado com gaslighting).
- Coletar informações Atuam como espiões: perguntam casualmente sobre a vida da vítima para repassar dados ao narcisista, facilitando hoovering (tentativas de reconquista) ou novas formas de controle.
- Pressão por reconciliação Frequentemente aparecem com frases como: “Ele/ela sente sua falta”, “Você está exagerando”, “Pelo bem da família, perdoe”.
Em casos extremos, especialmente no narcisismo maligno (com traços antissociais), os macacos podem participar de assédio prolongado, cyberbullying ou até ações que beiram o ilegal.
3. Como os “Macacos Voadores” São Recrutados
O recrutamento é um processo gradual e sofisticado. Narcisistas exploram vulnerabilidades humanas universais:
- Lealdade cega e empatia mal direcionada Muitos macacos voadores são pessoas genuinamente empáticas que acreditam na narrativa da vítima do narcisista. O abusador apresenta-se como “mal compreendido” ou “sofredor”.
- Medo e autopreservação Alguns temem tornar-se o próximo alvo. Alinham-se ao narcisista para evitar sua fúria.
- Codependência e necessidade de aprovação Pessoas com traços codependentes ou baixa autoestima sentem-se valorizadas ao “ajudar” o narcisista.
- Promessas de recompensa Ganho emocional (sentir-se especial), material (favores, dinheiro) ou social (pertencer ao “grupo vencedor”).
- Exploração de relações familiares Pais, irmãos, filhos e ex-cônjuges são alvos frequentes. Em famílias disfuncionais, o narcisista transforma membros em aliados contra o “bode expiatório”.
Pesquisas qualitativas e relatos clínicos (como os compilados por autores como Sam Vaknin, Shahida Arabi e especialistas em trauma complexo) mostram que o recrutamento começa cedo, muitas vezes no período de idealização (love bombing), quando o narcisista constrói uma imagem impecável.
4. Consequências para os “Macacos Voadores”
Embora pareçam “aliados poderosos”, os macacos voadores frequentemente pagam um alto preço:
- Comprometimento moral Participam de ações que violam seus valores, gerando culpa e dissonância cognitiva.
- Perda de autonomia Tornam-se dependentes da aprovação do narcisista, perdendo senso crítico e identidade própria.
- Isolamento e retaliação Quando questionam ou tentam sair, o narcisista pode virar-se contra eles, transformando-os em novos alvos.
- Trauma vicário Muitos desenvolvem ansiedade, depressão ou sintomas de TEPT complexo ao perceberem, tarde demais, que foram usados.
- Destruição de relações Perdem laços com a vítima original e, eventualmente, com outros que percebem a manipulação.
Curiosamente, quando o narcisista é “derrotado” (exposição pública, fim do poder), muitos macacos voadores abandonam ou até celebram — semelhante aos macacos do filme que se libertam da bruxa.
5. Significado no Estudo do Narcisismo
A metáfora ilustra perfeitamente como o narcisismo patológico não opera isoladamente: ele depende de um ecossistema relacional onde o controle se estende por rede. No transtorno de personalidade narcisista (TPN), especialmente no subtipo maligno, o uso de proxies é uma estratégia central para manter suprimento narcísico, evitar responsabilidade e perpetuar o poder.
Entender os macacos voadores ajuda profissionais de saúde mental, sobreviventes e sociedade a:
- Identificar padrões de abuso coletivo (não só individual).
- Quebrar ciclos familiares multigeracionais.
- Desenvolver intervenções que incluam educação de terceiros.
- Alertar sobre ambientes institucionais tóxicos (corporações, política, igrejas) onde líderes narcisistas recrutam “lacaios”.
Conclusão
Os “macacos voadores” revelam o quão profundo e sistêmico pode ser o dano causado por um narcisista. Não basta romper com o abusador principal; é preciso identificar e neutralizar sua rede de influência. Para a vítima, isso significa estabelecer limites rígidos, documentar interações, buscar terapia especializada em trauma narcísico e reconstruir uma rede de apoio genuína.
A boa notícia é que a conscientização sobre essa dinâmica está crescendo rapidamente. Quanto mais as pessoas reconhecem os sinais — lealdade cega apesar de evidências, pressão insistente para “perdoar”, relatos contraditórios —, mais difícil fica para o narcisista operar pelas sombras. Quebrar o encanto dos macacos voadores é, em última análise, libertar não só a vítima principal, mas também aqueles que, muitas vezes sem saber, servem como extensões involuntárias do controle.
Reconhecer essa metáfora não é demonizar pessoas, mas iluminar um mecanismo de poder que prospera na ignorância e no silêncio coletivo. A verdadeira liberdade começa quando paramos de voar para a bruxa e aprendemos a caminhar por nossa própria estrada de tijolos amarelos.
Psicólogo Clínico

